Com licença. Muitos talvez não me conheçam, quero pois, apresentar-me a vocês:
-Sou Mósine, muitos achando meu nome um tanto estranho, chamam-me simplesmente de “Memória’. Minha morada não é facilmente localizável, fica nas entranhas do tempo e do espaço, na exata conjugação entre os dois. Vez ou outra materializo-me, porém sou constituída por matéria muito fugaz, o que me torna extremamente frágil.
Como se isso não bastasse, tenho um grande inimigo conhecido pelo nome de Letes, ou seja, esquecimento, e contra ele estou sempre me armando, e travando constantes lutas. De repente, sem nenhum vestígio, ele costuma inundar-me com suas águas incômodas, espraiar-se em meus domínios, invadir-me e tentar aniquilar-me, o que me ocasiona enormes estragos e, um tremendo caos se instaura.
Dias destes, estando passeando por estas plagas sanjoanenses deparo-me com Letes, o esquecimento, vejo que está tentando dominar-me. Armei-me e sai à luta. Comecei a andar pelas ruas de São João da Boa Vista, consegui, em parte, vencê-lo e o tempo pretérito fez-se presente.
Dirigi-me, novamente, a rua Saldanha Marinho, onde São João tem muita história a ser narrada, reavivada. Ali, eu, a memória, busquei o passado, e eis-me novamente na esquina com a rua Tiradentes, no prédio de número seis.
Já era de meu conhecimento que ali funcionou, a partir de 1906, a empresa que editava o jornal O MUNICIPIO e que seu fundador e diretor foi Carlos Lühmann. A curiosidade aguçou-me. Quis saber, quem foi ele, qual sua história de vida. Quis emergir de um passado longínquo acontecimentos vividos há mais de um século.
Todos sabem, porém, que a memória sempre necessita de uma ajudazinha, fui, pois, socorrer-me à Matides Salomão e ela, sempre solícita, lembrou-me que;
Carlos Lühmann, além de fundador do O MUNICIPIO, foi também um dos fundadores da Associação Comercial de nossa cidade e pertenceu à “Sociedade Operária” organização de caráter nacional.
Em 1912, ajudou a fundar a “União Operária de São João da Boa Vista”, sendo seu presidente até a data de seu falecimento em 15 de março de 1914, ainda em 1912, esteve no “IV Congresso Operário”, realizado no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
Sua morte teve repercussão na Imprensa Nacional. A “Confederação Brasileira do Trabalho”, no Rio de Janeiro, hasteou a bandeira em sinal de luto e fez realizar uma sessão solene em homenagem ao ilustre sanjoanense. Já em São João, foi realizada, na União Operária, uma sessão fúnebre, em sua memória.
A cidade sentiu-se órfã! Desaparecia alguém, cuja lacuna seria difícil de ser preenchida.
Ele legava uma herança de honradez e cooperação não só à sua esposa e filhos, mas também aos sanjoanenses. Foi uma personalidade corajosa, serena que noticiava em seu jornal notícias de tudo que se passava aquém e além de nossa cidade. Foi, também, um homem bem informado que tinha prazer em ensinar, orientar esclarecer e noticiar.
Carlos Luhmann, embora nascido na Alemanha, escolheu São João para viver e sem dúvida, figura entre os mais importantes e nobres sanjoanenses.
Não há como esquecê-lo.

Maria Célia de Campos Marcondes é membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista




