Quem ensina na infância permanece por toda a vida

O Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, nos convida a lembrar daqueles que marcaram nossa trajetória. Uma palavra de incentivo, uma orientação no momento certo ou um olhar capaz de reconhecer uma possibilidade que ainda não enxergávamos. A data passa, mas a influência de um bom professor permanece.

Na minha vida, a escola e o esporte foram espaços de descoberta e transformação. Professores me ajudaram a compreender o valor das oportunidades, da convivência e da confiança. Essa presença pode influenciar escolhas profissionais e pessoais. Quando defendo o investimento na educação e no esporte, penso nas crianças que precisam encontrar essas mesmas portas abertas.

Essa influência atravessa todas as áreas do conhecimento. Está no professor que desperta o prazer pela leitura, naquele que ajuda a compreender um problema e em quem acolhe um aluno prestes a desistir. Ensinar exige conhecimento, sensibilidade e condições para acompanhar pessoas com histórias e necessidades diferentes.

Na Educação Física, meu campo de atuação, essa transformação também acontece quando uma criança vence o medo da água, aprende um movimento ou percebe que existe lugar para ela, mesmo sem ser a mais habilidosa da turma. Essas experiências ajudam a construir autonomia, cooperação, confiança e uma relação positiva com o próprio corpo.

Na infância e nos anos iniciais do ensino fundamental, brincar, correr, saltar, lançar e equilibrar-se ampliam as possibilidades de aprender e participar. A iniciação deve oferecer experiências variadas, seguras e inclusivas, respeitando o desenvolvimento de cada criança. A cobrança precoce por rendimento e a seleção dos mais habilidosos podem fechar portas justamente quando deveríamos abri-las.

Brincar tem valor em si: é expressão, descoberta, convivência e alegria. Na escola, o professor pode enriquecer essas experiências, organizar desafios e criar condições para que todos participem. Para isso, precisa conhecer seus alunos, planejar e adaptar as atividades.

É por essa razão que precisamos questionar decisões que substituem professores por trabalhadores contratados para outras funções. Quando monitores de apoio às classes passam a conduzir, sem formação específica e orientação adequada, atividades que deveriam estar sob responsabilidade docente, o problema está na organização do serviço e na escolha de quem atribuiu essas tarefas.

Os monitores merecem respeito e condições para exercer suas funções. Os estagiários precisam de supervisão e oportunidades de aprendizagem. Transferir a eles a responsabilidade de substituir professores prejudica os próprios trabalhadores e empobrece a experiência educativa oferecida aos alunos.

Na rede pública, essa preocupação é ainda maior. Para muitas crianças, a escola representa a principal oportunidade de acesso a práticas esportivas orientadas. Garantir qualidade nesse espaço é uma forma concreta de enfrentar desigualdades e permitir que capacidades e interesses sejam descobertos.

Essa defesa precisa vir acompanhada de valorização profissional. Remuneração digna, carreira, formação continuada, segurança e tempo para planejamento devem fazer parte das decisões de governo. A dedicação dos professores sustenta muitas experiências transformadoras, mas não pode servir de justificativa para naturalizar sobrecarga e condições inadequadas de trabalho.

Cobrar qualidade exige oferecer condições para realizá-la. O professor precisa de estrutura, materiais, equipes de apoio e espaço para participar das decisões pedagógicas. Reconhecer sua importância também significa ouvir quem está diariamente diante dos desafios da sala de aula.

Como gestor público, entendo que essa responsabilidade exige planejamento e continuidade. Educação, esporte, saúde e lazer precisam de programas permanentes, com orçamento, profissionais qualificados e acompanhamento. As oportunidades de uma criança não podem depender da duração de um projeto ou do calendário de uma administração. A continuidade deve ser um compromisso entre governos.

Também precisamos avaliar melhor nossos resultados. Matrículas, frequência e indicadores ajudam a orientar políticas públicas, mas não revelam sozinhos tudo o que acontece na formação de uma pessoa. Há conquistas que aparecem quando o aluno supera uma insegurança, aprende a conviver ou encontra confiança para seguir estudando.

Outras se revelam anos depois: na escolha de uma profissão, na participação comunitária e no cuidado com a própria saúde. O professor talvez não acompanhe esses caminhos, mas pode ter ajudado a torná-los possíveis.

Que a reflexão sobre o Dia do Professor alcance as escolhas feitas durante todo o ano. A melhor homenagem ganha expressão na remuneração, nas condições de trabalho e na presença de profissionais preparados onde as crianças mais precisam.

Quem ensina na infância pode permanecer por toda a vida. Cabe às políticas públicas garantir condições para que essa influência se multiplique por gerações.

Prof. Marcelo Siqueira é secretário Municipal
de Esportes e Lazer de Águas da Prata, Profissional
de Educação Física/Delegado do CREF4/SP e
Delegado do Panathlon International – Distrito Brasil

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