Vivemos atualmente o paradoxo da solidão hiperconectada. Nunca estivemos em contato com tanta gente e ao mesmo tempo tão distantes de todos e de nós mesmos. As redes digitais nos falam constantemente, mas ninguém nos diz nada que importe de verdade. Informações superficiais voam nas telas o tempo todo, produzindo um desesperado vazio de significados. E, nessa escuridão de sentido ouvimos baixinho: “Bem-vindo ao deserto do real” – a frase inspirada em Baudrillard, que Morpheus diz no filme Matrix, nunca foi tão verdadeira.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, mais conhecido pelo livro A Sociedade do Cansaço, apresenta em outro texto O Desaparecimento dos Rituais, uma interpretação interessante para esse fenômeno. De acordo com ele, nossa sociedade, dominada pela pressão por produtividade, pelo consumo e aceleração tecnológica, está perdendo aquilo que durante milênios sustentou a experiência humana: os rituais e a linguagem simbólica. Símbolos e rituais, afirma Han, não são meros ornamentos visuais ou costumes antigos. Eles são estruturas ontológicas: são, no tempo, o que uma habitação – uma casa – é no espaço. Para ele, perdemos aquilo que durante milênios sustentou a experiência humana: a capacidade de “habitar o tempo”.
Mas essa ferida não é apenas social. É também psicológica. Nossa consciência, forjada nessa atmosfera de urgência e superficialidades, ergue muros e rígidas barreiras racionais que bloqueiam o contato com as camadas mais profundas de nós mesmos – nossa dimensão inconsciente – promovendo uma dissociação fatal.
Essa dissociação ocorre quando a consciência racional perde o canal de comunicação com o inconsciente, habitat natural das experiências transcendentes, dos arquétipos ou imagens primordiais e das linguagens simbólicas, conforme define a psicologia profunda de Carl Gustav Jung. Isso se dá porque a nossa civilização passou a valorizar quase exclusivamente a racionalidade, objetiva e produtiva. Esse ambiente de competição sem fim, produz mentes doentes com ansiedade crônica, depressão e vazio existencial.
Mas, o símbolo resgata a vida. Para Jung, o símbolo verdadeiro não é uma simples representação de algo conhecido. Ele expressa aquilo que ainda não conseguimos compreender inteiramente. Estabelece uma ponte entre consciente e inconsciente. Um sonho, uma imagem arquetípica, uma obra de arte ou um ritual podem comunicar verdades interiores que nenhuma explicação puramente racional consegue alcançar. O símbolo é a linguagem viva que une opostos. Ele fala simultaneamente à consciência e ao inconsciente. Um ritual simples — acender uma vela, contar uma história, preparar um alimento com presença — é um símbolo em movimento. Quando permitimos que o símbolo nos atravesse, as barreiras rígidas da razão se abrem. A energia psíquica represada flui. E algo extraordinário acontece: alteramos a nossa própria percepção da realidade.
No inconsciente, a noção natural de espaço e tempo somem. Lá existe apenas a atemporalidade, o arquetípico, aquilo que sempre foi e sempre será: o “unus mundus” que o físico Wolfgang Pauli e Jung resgatam da Alquimia para explicar a sincronicidade.
Também Shakespeare, um autor maior, lembra a importância deste mundo simbólico, colocando na boca de Próspero em A Tempestade, as palavras “Somos da mesma matéria que os sonhos são feitos, e nossa curta existência é circundada pelo sono.”(T4:1)
A linguagem simbólica — presente nos sonhos que sonhamos, na arte que criamos, na religião que vivemos e nos pequenos rituais que teimamos em manter — não é um luxo poético nem misticismo abstrato. É uma necessidade premente de sobrevivência humana.

Ronaldo Marin é físico,
humanista e shakespeareano




