Criatividade na redação do ENEM

“Na mitologia grega, Sísifo foi condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra morro acima eternamente. Todos os dias, Sísifo atingia o topo do rochedo, contudo era vencido pela exaustão, assim a pedra retornava à base. Hodiernamente, esse mito assemelha-se à luta cotidiana dos deficientes auditivos brasileiros, os quais buscam ultrapassar as barreiras as quais os separam do direito à educação.”

O parágrafo anterior é parte da introdução da redação do ENEM 2017 de Thaís Fonseca Lopes de Oliveira, do Mato Grosso, que conquistou nota máxima na avaliação. Thaís induz o leitor a entender a situação complexa e abstrata pela qual passam os surdos comparando-a à experiência concreta de uma pessoa que rola uma pedra morro acima, dia após dia, que, apesar de seu esforço, sempre volta à estaca zero. Destaca-se, aqui, o que a competência II da matriz de referência do exame descreve como repertório sociocultural produtivo. A autora conseguiu, ao citar Sísifo, usar um conhecimento teoricamente compartilhado pela sociedade (narrativa mitológica) e relacioná-lo ao tema da redação (desafios para formação educacional de surdos). Esse recurso, além de valorizar seu texto com traços de erudição, mostra que ela percebe semelhanças entre elementos que não têm relação óbvia entre si.

Linguisticamente, Thaís criou uma analogia. Analogias, assim como metáforas e metonímias, são fundamentadas em processos de integração conceptual ou blending. Mark Turner, renomado cientista cognitivo, explica no livro “The origin of ideas” (A origem das ideias) que esse expediente mental é componente chave da criatividade humana. É graças a ele, por exemplo, que Steve Jobs criou o iPhone. Antes de seu lançamento, em junho de 2007, as pessoas já ouviam músicas, tiravam fotos, consultavam mapas, navegavam na internet, trocavam mensagens de texto, e telefonavam. A genialidade de Jobs foi tornar tudo isso possível a partir de um aparelho de uso amigável e suficientemente pequeno para caber em seus bolsos.

De volta ao ENEM, para atingir a nota máxima, além de dominar a norma padrão da língua portuguesa, conhecer a estrutura do texto dissertativo-argumentativo, compreender o tema e apresentar uma proposta de intervenção adequada, é preciso mobilizar conhecimento de mundo e marcá-lo explicitamente no texto. Uma forma simples de fazer isso é citar grandes pensadores. Em todos os temas, nesses 21 anos de ENEM, é possível enxergar um embate entre duas forças. Em 2017, foram os surdos contra a sociedade ouvinte. Pelo estilo da avaliação, essa dinâmica continuará presente nas propostas de redação, e pode ser ilustrada, por analogia, a partir das ideias de Zygmunt Bauman, Karl Marx, George Orwell ou até mesmo pela lei da inércia de Isaac Newton. O caminho é aprender alguns desses repertórios e entender o processo de integração conceptual para usá-lo estrategicamente, melhorando a sua nota.

Alexandre Bueno Santa Maria é professor de português e inglês do IFSP Campus São João da Boa Vista, mestre e doutorando em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp Araraquara. Seu contato é [email protected]

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here