Outro dia, parei numa esquina da região central de São João da Boa Vista para fazer algo que, hoje em dia, beira a excentricidade: apenas observar. Não havia fones de ouvido me isolando do mundo, nem uma tela brilhante exigindo minha atenção a cada notificação. O que vi à minha frente foi uma coreografia assustadoramente sincronizada, indiferente e submersa na distância que separa a vida real do condicionamento digital.
Na realidade, dezenas de pessoas passavam apressadas, apáticas e concentradas tão somente na luz azul de seus smartphones, com os rostos inexpressivos de quem está fisicamente em um lugar, mas mentalmente em nenhum. Nesse exato momento, dei-me conta de como a alienação tornou-se o nosso “novo normal”.
Vivemos, sem dúvida, a era do “copiar e colar” existencial. As opiniões são pré-fabricadas por algoritmos, os desejos são moldados por influenciadores, políticos ou mesmo pregadores que disputam as métricas efêmeras de aprovação virtual. Nesse sentido, a anulação de si está relacionada com a ausência de alma e de ânimo. Ora, alma é a energia vital e sede das emoções, enquanto o ânimo representa disposição e força de vontade. Assim, a rejeição da mediocridade envolve um processo de renovação interior, questionamento dos discursos falaciosos e desenvolvimento do pensamento crítico.
Diluídos na multidão de um mundo “hiperconectado” perdemos o peso das nossas próprias escolhas. É mais fácil curtir o que todos curtem, odiar o que todos odeiam e viver a vida que nos disseram que deveríamos viver. A anestesia é sedutora e confortável, mas cobra um preço muito alto: a nossa identidade. Sem dúvida, o leitor de O MUNICÍPIO compreende que ser diferente, neste atual contexto de letargia coletiva, deixou de ser uma questão de estilo, de usar roupas exóticas ou ter gostos alternativos. Ser diferente tornou-se uma questão de sobrevivência intelectual, com coerência, coragem, lucidez e genuína sensibilidade humana. Além disso, ser diferente implica na incessante busca de sentido em tudo o que fazemos na vida. Entretanto, a tragédia da alienação moderna é que ela nos rouba o tempo e a reflexão, de maneira que substituímos o significado pela distração.
De acordo com Viktor Frankl, psiquiatra sobrevivente de campos de concentração e fundador da Logoterapia, precisamos encontrar sentido e propósito para nossa existência e essa busca não consiste em evitar o sofrimento, vai muito além e está relacionada à nossa própria razão para viver, mesmo em situações difíceis e adversas.
Rebelar-se hoje é ter a capacidade de sustentar o silêncio sem entrar em pânico. É conseguir ler um livro de cem páginas sem interromper a leitura a cada parágrafo para checar as redes sociais. É olhar nos olhos de quem está sentado à nossa frente com o intuito de estabelecer um diálogo construtivo. Ser diferente na atualidade equivale a abraçar a complexidade em um mundo reducionista que exige respostas de até 300 caracteres. Portanto, ouse ser diferente, incomum, inusual, invulgar, anormal, raro, inédito, insólito, extraordinário, excepcional, excêntrico, alternativo, singular, especial e distinto. Afinal, a unanimidade pode ser um sintoma da falta de independência intelectual.
Enfim, na sua obra “O Mito de Sísifo” de 1942, o escritor franco-argelino Albert Camus defendeu “A busca por encontrar beleza no cotidiano”. Para ele “Sentir o máximo possível é a nossa mais profunda liberdade” porque ser autêntico é viver com plena consciência. Então, a crônica do nosso tempo não precisa ser escrita com as tintas pálidas do conformismo e da indiferença. Podemos escolher ser a opinião fora do lugar em um contexto desfavorável e coercitivo ou até mesmo a discordância inesperada e corajosa no meio de uma importante reunião da Direção Geral de uma grande empresa (repleta de bajuladores hostis). Em um sistema injusto e manipulador, que lucra com a distração coletiva ao manter sua lógica de dominação por meio do egoísmo covarde e alienante, a intrepidez audaciosa de pensar diferente é o maior e mais belo ato de autêntica rebeldia.
Depois dessas divagações, saí daquela esquina e caminhei no sentido contrário ao fluxo da calçada. Serei incompreendido ao optar pela direção antagônica? Sim, e se esse é o preço da autenticidade e da autonomia de pensamento, estou disposto a pagá-lo.

Antonio Artequilino da Silva Neto é Doutor em Linguística, mestre em Educação, historiador, professor e escritor youtube.com/@arte-quilino

