Como promover a construção coletiva da educação? Foi com essa provocação, aparentemente simples e, ao mesmo tempo, profundamente desconcertante, que olhei nos olhos dos professores e professoras da rede municipal de São João da Boa Vista nos últimos dias 18 e 19 de maio. Eu estava ali, no Polo da UAB, no bairro São Lázaro, após ter aceitado de bom grado um convite irrecusável do Departamento Municipal de Educação, assinado pelo atual diretor, Ricardo Donizete Tabarim.
O objetivo era claro: ministrar palestras na abertura das reuniões de Escuta Qualificada da rede. No primeiro dia dialoguei com os representantes da Educação Infantil e, no segundo dia, com os docentes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Em ambos os momentos, a questão da construção coletiva da educação se impôs e nos ajudou a compreender que se trata de uma tarefa que é urgente, inacabada e permanente.
A propósito, certa vez, tive o imenso prazer de conhecer Rubem Alves pessoalmente. Guardei comigo, como um tesouro vivo, o que ele pensava sobre a construção da educação. O mestre costumava dizer algo avassalador em sua simplicidade: “Professores infelizes não podem construir uma escola feliz!”. Ora, se os nossos educadores estão sobrecarregados, desanimados, preocupados ou entristecidos, temos problemas sérios para serem resolvidos e, consequentemente, precisamos conversar.
Não existem soluções milagrosas para os complexos desafios da educação, tampouco fórmulas pedagógicas mágicas para o aprendizado efetivo dos alunos. Assim, fiz questão de recordar a todos os presentes que conversar, na sua raiz mais pura, significa literalmente “virar-se junto para o outro”. É o ato de voltar o corpo, a mente e o coração na direção de alguém. Quando conversamos verdadeiramente, validamos a existência do outro. Em uma sociedade cada vez mais egoísta, essa é uma experiência profundamente transformadora. Ao nos voltarmos para outras pessoas, não apenas acolhemos o próximo, mas aprendemos sobre nós mesmos. É exatamente através desse movimento que formamos comunidades reais, resolvemos conflitos e dissipamos as inevitáveis tensões do cotidiano escolar, ou seja, construímos a educação com diálogo, respeito e escuta ativa.
É por essa razão que a iniciativa do Departamento Municipal de Educação ganha uma relevância pedagógica e política extraordinária. Entendo com clareza que a Escuta Ativa Qualificada deve ser o lema da gestão municipal para praticar a gestão democrática em sua essência na educação. Afinal, a escola é o território onde se cruzam subjetividades, anseios e, muitas vezes, silêncios gritantes que precisam ser compreendidos. Exercer a escuta ativa é compreender que, por trás de um comportamento difícil ou de um olhar esquivo, existe alguém que precisa de ajuda. Dialogar e escutar de verdade são requisitos básicos para humanizar os processos pedagógicos e curar o tecido social a partir da base. Por isso, a escuta ativa, proposta de forma consciente pela liderança da educação de São João da Boa Vista, reconhece que a construção coletiva da educação se faz no chão da escola, ouvindo quem de fato lida com a realidade das nossas crianças.
Portanto, a verdadeira construção coletiva da educação depende, de forma indissociável, de quatro pilares: a gestão democrática que abre as portas para o diálogo; a esperança que nos move a continuar apesar dos desafios; a ação consciente de cada educador; e, fundamentalmente, dessa escuta ativa que nos sintoniza uns com os outros.
Ao encerrar as palestras, saí convicto de que a escuta qualificada é a maior prioridade para a alma da escola. Quando uma gestão se propõe a ouvir, e quando os professores aceitam o desafio de se “virarem juntos” na mesma direção, a infelicidade poderá dar lugar ao pertencimento. E é apenas assim, ouvindo e construindo no coletivo, que seremos capazes de edificar a escola feliz com a qual Rubem Alves tanto sonhou.

Antonio Artequilino da Silva Neto é doutor em Linguística, mestre em Educação, historiador, professor e escritor. YouTube: “Pensar com Arte – quilino”.




