Ninguém parece se impressionar mais com as cenas de corpos acumulados em igrejas na Itália ou esperando nas casas de família. Preocupa-se cada vez menos com o risco limite dos profissionais da saúde nos hospitais, cada vez mais repletos do cheiro da morte e esperando por escolhas tristes sobre a vida e a morte. A apreensão precavida dando lugar à expectativa ilusória por algum discurso infantil libertador, aguardando um grito de gol.
Acontece que o freio para a dor pela qual a humanidade passa não virá num palanque ou de uma fake news de Wahtsapp, nem mesmo de uma multidão verde amarela exigindo que tudo volte ao normal: Covid-19 é um vírus, e não um partido. Os únicos que tem algo a dizer a respeito da pandemia estão silenciosos em seus laboratórios, ganhando pouco, aplicados no demorado ofício de buscar alguma verdade científica, a única que cura.
A pesquisa científica parte de hipóteses para comparar várias alternativas em vários casos, e só se manifesta quando encontra algum nível de certezas; e a natureza quase nunca abre seus segredos imediatamente. Não pode trazer respostas imediatas sem todas as garantias, senão perde a eficácia, entra na vala comum de qualquer discurso político ideológico; torna-se mero palpite, sem garantia alguma, aí perdemos nossa única fonte segura.
Até agora pouco se encontrou sobre tratamentos contra o vírus, e qualquer indicação pública é mera especulação. A única certeza é sobre como evitar sua transmissão, e todos os cientistas de centros de pesquisa de ponta são unânimes quanto à urgência do distanciamento social. Quem não seguiu este conselho viu a catástrofe, independente do credo político. Por isso, sair de casa, só se for imprescindível.

Marcos Rehder Batista, sociólogo, pesquisador em economia industrial

