Coisas que passam

CLINEIDA JUNQUEIRA JACOMINI
Academia de Letras de São João da Boa Vista
Cadeira nº 43 – Patrono: Rubem Braga

“Só não se dá jeito pra morte… esse é o meu lema preferido. E minha sobrinha Mara emendou: Tia, às vezes, o jeito é a morte!”

No meu tempo de menina, morando na roça desde que nasci, vi coisas que, se não contadas, ninguém saberia, nem poderia imaginar que existiram. Uma delas é a batata ralada, água e açúcar dentro de uma garrafa, com rolha segura por um barbante. Ficava no chão da área da cozinha. Era o fermento biológico feito, já que era difícil comprar o Fleischman único àquela época. Quando a fermentação estava no ponto, a rolha explodia pra fora do gargalo e eu gritava: – Mãe, a garrafa explodiu! E ela fazia o pão. Quando estes terminavam com a fome voraz de quem trabalha duramente (ou nem tanto), tudo começava outra vez!

Outra coisa a ser rememorada: não havia detergente. O sabão era ‘de pedra’ ou ‘de cinza’. Explico: os chamados de pedra eram feitos com soda cáustica, muito perigosa por ser corrosiva ao extremo, e com a gordura e restos de carne de animais mortos na fazenda. Tudo ia ao fogo com a água necessária para cozinhá-los e dissolvê-los com a ajuda da soda. Quando no ponto, já engrossado, esse caldo era despejado numa vasilha de madeira, pois a soda corrói o metal. Depois de seca, era cortada em pedaços, tal qual os agora comprados.

Já o sabão de cinza, com ajuda do nosso fogão à lenha, era feito com as águas das cinzas, que eram potássio puro. Ela era depositada numa vasilha que tinha furos em baixo, tal qual uma peneira, e deixada no galinheiro, fora do alcance de crianças xeretas num plano inclinado. O caldo era recolhido num recipiente e com ele era feito o sabão, que era escuro, feio, mas muito bom para lavar as roupas sujas da terra da roça. Esse não era cortado mas sim feito uma bolota com as mãos, depois de engrossado e frio e enrolado em pedaços de jornal. Esse líquido era chamado de ‘diquada’ que, penso, era uma corruptela de ‘adequada’. E pra que? Para limpar a sujeira! E como as coisas mudam! Não se faz mais a ‘diquada’, mas como ela seria útil e tão necessária hoje no nosso brasil, assim mesmo, minúsculo nas letras, mas maiúsculo na corrupção e desordem generalizada! Não há poder que escape! Decepcionante isso.

E qual a ligação com a frase lá de cima? Pra tudo se dá um jeito, o nosso famoso ‘jeitinho’ brasileiro, engenhoso e criativo. Mas, com o país tão bagunçado e em mãos estranhas e não convencionais, fico pensando que só ou nem a morte dará um jeito na nossa amada terra tupiniquim, abençoada por Deus.

Aliás, fecho com outra frase tradicional entre os pentecostais: ‘Só Deus na causa!’ Oremos!

Ah! O Brasil continua maiúsculo no meu coração patriota!

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