Há histórias que, por mais que passem os anos, os séculos e que venha até a inteligência artificial, continuam sendo transmitidas às novas gerações sem que se alterem seus elementos principais. Nelas, os personagens considerados vilões serão sempre os malvados, os oportunistas ou aqueles que castigam as princesas e perseguem os mocinhos da história.
Em um intervalo entre aulas, eu estava rolando a tela do celular quando vi uma postagem “patrocinada” que logo me chamou a atenção. Era justamente sobre esse assunto: por que as histórias infantis precisam ter bruxas e lobos sempre maus?
Pensei um pouco e percebi que, realmente, muitas histórias conhecidas por nós desde a infância, escritas ou registradas há séculos por autores como Charles Perrault, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen, eram originalmente bem mais sombrias do que as versões que chegaram até nós.
Algumas eram tão violentas que, com certeza, provocariam muito medo nas crianças que as ouvissem hoje. Se o contador dessas histórias fosse do tipo que dramatiza cada passagem, então, o pesadelo estaria instalado de vez na cabecinha delas!
Poucos se lembram ou sabem, que, antes de Walt Disney suavizar para o cinema a história de personagens como Branca de Neve, Cinderela, Ariel ou Aurora, muitos desses contos apresentavam acontecimentos e finais bem diferentes daqueles que conhecemos.
Branca de Neve, primeiro longa-metragem de animação dos estúdios Disney, lançado em 1937, ainda mantém alguns elementos da história dos irmãos Grimm, como a conhecida maçã envenenada. Mas, antes de chegar à fruta, a madrasta faz outras tentativas contra a enteada: primeiro com um espartilho extremamente apertado, que quase a asfixia, e depois com um pente envenenado. A boa notícia é que, nessas ocasiões, Branca de Neve é socorrida pelos anões.
Ariel, a Pequena Sereia, também não tem, no conto de Hans Christian Andersen, o mesmo final feliz que conhecemos pelo cinema. E, quando voltamos ainda mais no tempo, encontramos versões de antigas histórias com acontecimentos tão sombrios que dificilmente seriam considerados próprios para crianças nos dias de hoje.
Como incentivadora da literatura entre as crianças, não quero entrar no mérito dessas versões mais antigas. O que me chama a atenção é outra questão: personagens como o lobo e as bruxas atravessaram os séculos sendo colocados sempre como os vilões.
Mas por que precisam ser, necessariamente, maus?
Talvez a explicação esteja também na formação das crianças. Ao conhecer personagens como lobos, bruxas e madrastas, elas aprendem, de maneira simbólica, que a vida também apresenta perigos. Aprendem que nem todo mundo que parece bom realmente é, que existem pessoas capazes de mentir, enganar e até demonstrar uma falsa gentileza para conseguir aquilo que desejam.
De certa forma, essas histórias não serviam apenas para entreter. Também faziam um alerta.
Uma coisa, porém, é inquestionável: a literatura continua encantando geração após geração. Talvez porque uma história nunca termine exatamente no ponto-final colocado pelo autor. Cada pessoa que a lê pode entendê-la de uma maneira, fazer uma pergunta diferente ou enxergar algo que outro leitor não percebeu.
Como professora de Língua Portuguesa, aprendi, ao longo dos anos, que ler não é somente compreender palavras e frases. É pensar sobre elas, questioná-las e, muitas vezes, descobrir sentidos que estavam ali e que ainda não havíamos percebido.
E talvez seja esse o encanto da literatura. Voltamos a histórias que conhecemos desde crianças e, mesmo assim, elas ainda conseguem nos fazer pensar.
Quem sabe, então, não esteja na hora de ouvirmos também o que o lobo teria a dizer?

Marly Camargo
Academia de Letras de São João da Boa Vista
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana



