Quando o carteiro chegou…

Qual pessoa saudosista não se lembra, com nostalgia, do tempo em que esperar a passagem do carteiro pelo seu endereço era motivo de grande ansiedade? Eu faço parte deste coro, que entoaria; com entusiasmo “quando o carteiro chegou e o meu nome gritou, com uma carta na mão…” – repetindo os versos da música. Essa memória me dominou quando eu acessava a internet, no dia 1º de junho, e me deparei com uma notícia que dizia que, após 303 anos de monopólio, os Correios estavam em situação de crise. Diante deste quadro, cerca de 84 mil empregados, em cinco mil municípios, seriam dispensados e o prejuízo, entre janeiro e março deste ano, atingiu 3,1 milhões de reais. Triste realidade! Porém, eu estava diante de um dos responsáveis pelo que fez toda essa engrenagem desandar: o computador. Ele é que nos permite disparar mensagens (e-mails) ou utilizar redes sociais que outrora chegariam às pessoas por meio de cartas! Importante é sempre deixar claro que não sou contra as tecnologias, muito pelo contrário. Reconheço que whatsapps, Facebooks, Instagrams e outras ferramentas do universo online são muito mais eficazes e rápidas para atingir as pessoas. Ao passo que, antigamente, enviar mensagens pelos Correios demorava semanas entre o escrever, despachar e receber a resposta – que nem sempre chegava, ou porque o amigo não gostava de escrever, ou porque a carta se extraviara pelo caminho.

Mas faço um adendo – era muito gostosa a sensação de pegar um bloco, por vezes ilustrado, uma caneta, colocar no papel as novidades, perguntar ao destinatário como ele(a) estava, até mesmo colocar no envelope pequenos mimos, como fotos, cartões, desenhos, enfim, criar uma lembrança carregada de afeto. Certamente, ele seria sentido quando a tal carta chegasse ao endereço. A expectativa do que a pessoa pensaria, ao ler nossas mensagens, então, era ímpar! Quantos romances foram cultivados e cresceram tendo o carteiro como guardião de todo esse carinho em forma de papel? Cheguei a me emocionar ao pensar em todos esses detalhes, que me assaltaram após a ultra breve leitura da notícia sobre a crise dos Correios.  Em uma rápida conversa de whatsapp com uma amiga, esse assunto brotou. Com sua excelente memória, ela me contou de uma reportagem que o programa “Fantástico” exibiu, em meados de 1986. O tema era a amizade entre uma brasileira e uma norte-americana, amizade esta que começou por cartas, quando ambas eram crianças. Na ocasião da matéria, elas iriam, finalmente, se conhecer ao vivo e a brasileira confessou que sua principal intenção, ao se aproximar da menina americana, era treinar o inglês. A certeza de que a amizade era bem mais profunda veio quando a mãe da ‘gringuinha’ morreu – e, junto com a carta, ela enviou à brasileira um par de brincos que haviam sido de sua mãe. Realmente, esse bate-papo virtual, somado à notícia lida de relance, fazem com que eu lamente a situação. Por um lado, sinto-me feliz por ter feito parte da geração que trocava cartas; por outro, considero muito triste que meus netos e alunos não sintam o calor e afetividade que essas mensagens via Correios são capazes de provocar. É como se, com a ECT ameaçando ruir, toda a história que ela ‘escreveu’ na vida de tantos que a utilizaram por esses mais de 300 anos também fosse ‘demolida’. Progresso faz parte da vida, é necessário e está até na nossa bandeira. Só precisamos ser adaptáveis, sem, contudo, perder nossas memórias.

Marly Camargo
Academia de Letras de São João da Boa Vista
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

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