Por Luciana de Andrade Ferreira Gomes
[email protected]
Já me perguntaram se eu era parente da centopeia!! É, eu tenho bastante sapato e sempre gostei muito disso: comprá-los.
Algumas vezes até exagerei… Pois é, atire a primeira pedra quem nunca exagerou nessa vida!
Lembro de uma loja onde os sapatos ficavam organizados por numeração. Eu ia pegando os que gostava na prateleira; experimentava e, se aprovasse, colocava na sacola… Caso contrário, devolvia. Simples assim; ou pelo menos parecia.
Num desses dias, eu estava com minha mãe. Ela calça 34, eu 36. Sentamos num banquinho e começamos a revisar os sapatos que já estavam na sacola; eram sandálias de salto médio, salto alto, sapatos fechados … Quase um de cada cor e todos, claro, de salto!
Escolher: essa parte sempre era uma missão quase impossível. Todos eram tão lindos… E minha mãe ainda concordava com meu gosto! Resultado: passávamos bom tempo para conseguiu abrir mão dos excessos, mas na maioria das vezes ia levar pelo um parzinho para casa.
E foi lembrando disso que eu pensei: como tudo muda! Mesmo quando tentamos resistir, a mudança é a única certeza da vida.
Eu usava salto alto o dia inteiro. Trabalhava, passeava… A desculpa? Meu marido é alto, e eu sou baixinha. Mas, no fundo, não era isso. Eu simplesmente amava um salto. Sempre achei que ele transforma qualquer roupa, dá postura, presença…
Até que tudo mudou… A coluna travou. A pandemia chegou. A loja dos sapatos mais lindos fechou.
E eu fingi que estava tudo bem.
Passei a usar tênis e me convenci de que estava ótimo. Porque, se eu pensasse demais, voltaria correndo para um salto 15.
Tanto que, em uma festa linda de 15 anos, algo que jamais imaginei, aconteceu!! Mesmo sabendo que depois pagaria o preço com a coluna, fui de salto e as meninas da valsa… todas de tênis!
E estavam lindas!! Leves! Graciosas! Felizes! Naquele momento de descoberta da vida.
Tempos mudados…
Mas, a história não parou aí.
Com o tênis, comecei a sentir dor na sola do pé. E a coluna? Parecia até pior do que na época dos saltos.
Foi então que veio a grande lição: nada como o meio-termo… o caminho do meio; o equilíbrio.
Nem o exagero do salto alto; nem a negação completa do tênis. Os dois extremos, de alguma forma, cobravam seu preço.
E foi nos saltinhos médios, simples, discretos….. Que encontrei um novo lugar. E, com eles, minha coluna finalmente agradeceu.
E hoje eu entendo…
Não é só sobre sapatos. São sobre as escolhas, excessos, renúncias e aprendizados.
Sobre insistir, quando não dá mais…
Sobre mudar, mesmo sem querer…
E, principalmente, sobre aprender a se escutar.
A vida vai, aos poucos, nos ensinando que não precisamos viver nos extremos para sermos felizes. Nem tão alto que doa; nem tão raso que perca a graça.
Ainda tem horas que quero o excesso. Coloco o santo alto… Mas, com cautela … Só um pouquinho. Afinal, ninguém é de ferro!!!
Hoje, sigo caminhando…Com menos altura nos pés, mas com muito mais firmeza e aceitação da e na vida.




