João Merlin: o engenheiro das paixões

Trinta e cinco anos se passaram e a memória celeremente volta-se a João Batista Merlin. É a memória enraizada no passado tentando trazer o pretérito de volta.

Foi em setembro, quando a primavera dava seus primeiros sinais de renascimento, que ele partiu e deixou a todos atônitos. Num momento de incredulidade achávamos que ele reapareceria com seu jeito simpático, sorridente, dinâmico, apresado, parecendo um meteorito, com mil compromissos, milhões de ideias, infinitos projetos, pois era um maremoto de ideias, de sonhos, utopias e realizações.

A primavera resplandecente, prenhe de cores e perfumes voltou ano após ano, e do Merlin ficou apenas a lembrança gostosa de quem amava São João da Boa Vista, de quem lutou para a realização do restauro do Theatro Municipal, da Igreja Catedral, das esculturas “Quatro Estações do Ano”, da criação do Museu de Arte Sacra e da Amarte –Associação dos Amigos da Arte e da Cultura, onde ele gerenciou centenas de eventos sempre valorizando o dom, o talento, muitas vezes adormecidos, de dezenas de sanjoanenses.

Era amigo irrestrito de todos que gostassem de arte, independente de idade, raça, ou credo religioso. Era grande o respeito que tinha pelas pessoas mais velhas. Gostava de ouvir suas histórias, dava-lhes importância e até incumbência.

As homenagens faziam parte de sua vida, fossem para pessoas ilustres e reconhecidas ou pessoas anônimas que, com talento escondido, faziam sua arte. Personagens vivas ou mortas todas eram homenageadas e lembradas em eventos brilhantes.

Dessa maneira, colocava com ousadia e paixão suas ideias, seus projetos e lutava até conseguir realizá-los, como só acontece com quem vive além de seu tempo e com maior clareza vê o burburinho que constitui a vida humana. Assim, vivia, ele, com grande intensidade!

João Merlin possuía liderança carismática e unia pessoas à sua volta. Verdadeiras equipes prontas para acompanhá-lo. Ao seu lado ninguém ficava parado, ninguém podia desanimar. Alguns aprendiam, outros desenvolviam o gosto pela arte, pela conservação e restauro do patrimônio. O elogio e a valorização eram sua tônica.

Ah! Como esquecer!!! Não é que um dia resolveu aparecer com um modelo de flores, feitas em papel crepom; ensinou e colocou uma multidão de amigos para confeccioná-las em diversos tamanhos. Foram usadas em todos os eventos que promovia: bailes, procissões, festas juninas, colocadas dentro dos oratórios, enfeites de andor, de altar. Não importava se o evento fosse sacro ou profano, mas lá estavam as flores do João. Até hoje elas são confeccionadas pela Mana, do Museu de Arte Sacra, e têm o mesmo destino. Mil serventias!

Na verdade, Merlin só tinha um grande inimigo: o relógio ou dizendo de outra maneira, ele só não era amigo de horário fixo. Pontualidade zero. Mas seus amigos, já estávamos acostumados e também entrávamos em seu ritmo atemporal.

Assim era João Batista Merlin, um verdadeiro Dom Quixote lutando contra dragões que não eram simples moinhos de vento, mas o Theatro, a Catedral, a Amarte, o Museu de Arte Sacra! Quanta alegria lhes deram. Já seus amigos eram como Sancho Pança, acompanhando-o em seus devaneios, que se tornavam realidade.

A primavera novamente anuncia-se, com ela as flores, o canto do sabiá, os dias mais longos e João na memória dos que o conheceram e sabem de sua importância na história da cidade.


Maria Célia de Campos Marcondes é membro da
Academia de Letras de São João da Boa Vista

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