Reza a lenda…

Que nos tempos da geração analógica a vida transcorria serena, o ritmo do tempo era mais lento, as relações pessoais mais fraternas, a diversão mais ingênua e, principalmente, que se dedicava mais tempo livre para vivenciar o protagonismo da própria existência.

As prioridades eram outras. A educação e as regras de conduta eram mais rígidas. Havia um cronograma com roteiro predeterminado de infância, adolescência e juventude que obedeciam a modelos mais ou menos padronizados como “ideal” pela sociedade, com pouca variação e mobilidade. Até mesmo, na vida adulta, o fenômeno se repetia em termos profissionais, casamento, estrutura familiar, religiosidade, patrimônio e realização pessoal. Invariavelmente, a pressão invisível das convenções sociais tradicionais prevalecia sobre o desejo e a vontade individual.

Essa percepção é mais nítida para aqueles que, como eu, atravessaram a transição para a cultura digital. Entretanto, tudo mudou, evoluiu e juntamente com a revolução tecnológica o mundo sofreu um processo acelerado de transformação de costumes que vai do campo afetivo às relações de trabalho.

Esse contexto atual de maior liberdade de costumes, muitas vezes, se contrapõe aos paradigmas consolidados das gerações anteriores, porém, dependendo do ponto de vista, nem todas as mudanças são questionáveis. Algumas delas, revelam avanços significativos em termos de autenticidade, autonomia e maturidade emocional, bem como outras são decorrentes da realidade dos novos tempos.

Nesse sentido, a experiência cotidiana e estatísticas americanas recentes confirmam que a idade média do primeiro casamento que na década de 70 do século passado era de 22 anos para homens e 20 para mulheres, subiu para 32 e 29 respectivamente. A maternidade, outro marco importante no calendário social dos casais, acompanhou essa tendência aumentando para a casa dos 29 anos a primeira gestação. O curioso nesse levantamento é que, atualmente, predomina mais nascimentos de filhos de mulheres com mais de 40 anos, do que de menores de 25 anos. Outras preferem, conscientemente, não casar.

Em razão da maior expectativa de vida da população, a coragem de empreender por conta própria, que antes se iniciava na faixa dos 20/30 anos, se elevou para 40/50, insinuando que o futuro está aberto e que nunca é tarde para iniciar. Outro fato relevante é a maior capacidade de ruptura radical de planos no itinerário da vida, quando o projeto idealizado apresenta resultados equivocados ou frustação em termos de realização pessoal.

Por outro lado, o exercício de profissões técnicas e liberais exige muito mais estudo que outrora. Na busca por excelência e de olho na competividade, o aperfeiçoamento profissional tornou-se um imperativo permanente, não só aprofundando conceitos de formação, mas também na atualização de ferramentas e soluções inovadoras de cada área de atuação.

O conjunto dessas transformações comportamentais demonstram que as pessoas estão se libertando, gradativamente, do julgamento das convenções sociais convencionais e colocando suas escolhas em primeiro plano. Na jornada da vida, cada passo agora é analisado com mais critério e planejamento.

Cabe a nós, entes pensantes amadurecidos, se adaptar ao presente, sem desqualificar o passado e priorizar os nossos projetos para o futuro. Concluo com uma frase icônica do poeta Fernando Pessoa – “Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as suas rosas. O resto é sombra de árvores alheias”.

Raul Andrade é engenheiro agrônomo e membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista
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