O empurra-empurra do enoturismo

Outro dia apareceu para mim o seguinte anúncio: “Como aproveitar os primeiros minutos de uma feira de vinhos”, já que é um assunto que muito me interessa, fiquei curiosa. Quando o li, entendi que se tratava de dicas para não perder tempo e provar a maior quantidade de vinhos possíveis em uma feira. É como dizer que se ganha quem mais provar vinhos, criando o empurra-empurra do enoturismo.

Isso me fez lembrar das muitas feiras que já participei e da inquietude das pessoas que procuram pelas bancadas dos produtores que estão vazias, para apontar suas taças e se servir de vinhos que pouco as interessam.

Algumas pessoas de fato estão ali em busca de conhecimento ou ainda, para tomar um vinho bom. Mas a célebre frase dos aprendizes a enófilos, “eu gosto, mas não entendo nada”, se torna a maior desculpa para continuar sem entender. E nesse cenário, algumas feiras têm se tornado ótimas opções para quem aprecia o álcool, e não o vinho.

Até que chegou o dia de mais um evento, dessa vez na casa dos nossos vizinhos. A terceira edição da maior feira de vinhos de inverno do país, que aconteceu em Espírito Santo do Pinhal, trazendo bons vinhos e também, boas atrações para quem “gosta, mas não entende”.

Abrir os olhos para esse público e criar esse cenário diferente, expôs o potencial que nossa região tem para o desenvolvimento não só da viticultura, mas também de atrair os olhares para um caminho já muito falado: o enoturismo (e sem empurra-empurra).

Eu já participei de feiras para entusiastas de degustações profissionais, encontros de referência e premiações do mundo do vinho. Mas o que ficou claro no evento da região, é que apesar de atrairmos os bons entendedores do assunto, também existe a preocupação de quem está apenas buscando um bom entretenimento.

A harmonização do vinho com música, com cozinha show e com a presença dos mais variados restaurantes da região, movimentou um público amplo que vai do profissional que ganha a vida avaliando bons rótulos até os que escolhem rótulos clichês do mercado, tornando esse evento completo.

Teve gente interessada em ver artista de televisão e teve gente ansiosa para encontrar o agrônomo que desenvolveu o método da dupla poda, revolucionando o mapa do vinho no Brasil.

No festival vimos vinhos jovens na safra e antigos nos sonhos. Aliás, esse foi um tema que, com todos produtores que conversei, tinham na ponta da língua: a história dos seus vinhos.

Muito se fala do vinho, da uva, da forma de vinificação. Mas na TurisAgro falava-se mais da luta para conquistar o vinho em taça, do que do próprio vinho. É a primeira geração da vinícola, de quem a fundou e estava lá, para contar pessoalmente sua história.

O festival também mostrou que a Syrah, a uva mais cultivada para vinificação dos vinhos de inverno, deixou de ser a protagonista para que, muitas outras descobertas chegassem.

Cinsault, uma uva de origem francesa, foi minha maior surpresa. E que surpresa! Vinho laranja e Pét-nat, desfilavam com maestria em meio a muitos rótulos premiados. Sem falar dos aromáticos Viogniers, uma uva também de origem francesa e agora, a escolhida por muitas vinícolas da Serra da Mantiqueira para se produzir vinhos brancos maravilhosos.

Eu achei muito interessante ver que para muitos, além das dificuldades que a uva encontrou para se tornar vinho, também existiu dificuldades para se tornar produtor, provando que o festival começou lá atrás, quando o vinho foi engarrafado.

Participar de eventos como esse, que destacam os produtores e reafirmam o poder do enoturismo em nossa região, é olhar para uma história acontecendo bem próximo da gente que está nos colocando em um segundo centro de viticultura de um país onde até então, só se apreciava cerveja gelada.

Um brinde aos que estão fazendo história e até a Próxima Taça.

Mariana Mendes De Luca
@marianamdeluca

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