Bons resultados com que aprende

Nosso trabalho como professores, diante da situação dramática por que passamos e ainda vivemos, leva-nos a muitas reflexões. Elogiáveis são as reações de professores que inventaram respostas úteis e boas dinâmicas de colaboração nas escolas.

Aparentemente simples, a prática de quem ensina envolve uma densa teoria. Ao longo da história, muita gente de longo saber dedicou-se a refletir sobre como deve agir aquele que ensina para conseguir bons resultados com quem aprende.  Foi o caso de Agostinho, no seu santo e paciente ensino a Deodato. É o caso de muitos pensadores. E de minha prática docente.

Ponto de partida dos grandes educadores: partir sempre do aluno. Levar em conta o estado atual do conhecimento do aluno. Mais: ensinar a pensar não significa esgotar tudo o que cabe na disciplina. Analisar e sintetizar. Dar as ferramentas para o aluno buscar, criar, avançar por conta própria. Aí entra a avaliação. Valorizar individualmente. Variar as avaliações, pois isso amplia a chance de explorar outros tipos de inteligência na classe e permite aos alunos apresentarem seus talentos.

Quem ensina precisa ter a humildade de reconhecer que não é o único protagonista do processo de ensino. Há os alunos. Por isso, insisto que esse processo é uma cooperação, ou seja, uma operação em conjunto do docente com os estudantes e destes entre si: cooperação. Isso exige até uma mudança no layout da sala de aula. Em vez da professora no alto do estrado o novo desenho é de várias mesas com alunos e a docente circulando entre elas.

Atenção merece o currículo. Respeito à identidade cultural. Apresentação da realidade-matéria-de-ensino como algo em transformação. A cultura na qual vive o aluno é constituída não só de palavras, mas de imagens, sons e cores. E o texto, sem dúvida, continua muito importante, é instrumento para fazer pensar.

Usar a problematização é outro item para o bom ensino. O “problema” é o cerne da ciência e da arte. Os problemas desinstalam, geram inquietude, levam à pesquisa e à produção do conhecimento. Desenvolver mentes perquiridoras, curiosas, perspicazes. Mostrar textos opostos, visões distintas de um autor a outro. Valorizar as inquietações pode ser a via de acesso a uma penetração sistemática no domínio do conhecimento científico e filosófico. E artístico, por que não? Por isso: desenvolver a criatividade. Discussões, encenações, debates, dramatizações, atividades as mais variadas, usadas com clareza de objetivos, podem ativar as forças criativas dos alunos.

Sempre que escrevo sobre o ensino, gosto de lembrar que o conhecimento é um todo. É claro que a complexidade do mundo exige a especialização. Mas o bom conhecimento da parte exige uma clara visão do todo. Cuidar, pois, da interdisciplinaridade. Restaurar o sentido original do conhecimento, que era único e foi se fragmentando.

Todos os docentes devem analisar-se pessoalmente. Temos que fazer um exercício analítico-crítico para poder responder aos anseios de nossos alunos. E precisamos desenvolver a virtude da paciência. O aluno problemático precisa mais de nós do que o aluno brilhante. Exercitar a paciência é necessário a um profundo compromisso com o ato do ensino.

Temos que ter consciência da força da nossa palavra. Ela tem poder e repercute em cada estudante de modo diferente. É preciso dirigir o espírito à observação sistemática sobre a experiência vivida. E ainda: fugir dos formalismos. Enfatizar o processo interior, vivo, de dúvida, de criação, de investigação. Sair fora de detalhismos que distraem a visão do conjunto, é obstáculo para as vinculações globais, estruturais.

Enfim: valorizar o conhecimento. A percepção do conhecimento como meio de conseguir as melhores notas e eliminar os adversários na competição deve ser combatida, pois prepara para a adaptação egoísta na sociedade. Pensemos numa adaptação solidária.

Esses princípios podem e devem ser completados à medida que os docentes forem enriquecendo-os com novas ideias, decorrentes da prática docente. São convites abertos a novas contribuições. São, no sentido que lhes atribui Umberto Eco, “obra aberta”.

Para finalizar, após tantas cobranças aos docentes de nossas escolas para o aprimoramento de seu ensino, finalizo com uma palavra sobre as condições de tal trabalho que comprometem seu tempo de aprimoramento. São reflexões necessárias para a mudança. E com urgência.

Maria Eugênia L. M. Castanho é pedagoga e doutora na área pela Unicamp. Autora de livros sobre metodologia do ensino.

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