Dualidade

Por Clineida Junqueira Jacomini
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Palavrinha tão em moda em Brasília, no mundo, na política, no clima etc etc. No dia/noite; sol/chuva; calor/frio; ricos/pobres….. Pensei nela enquanto assisto à novela Terra Nostra que conta a saga dos imigrantes italianos aqui no Brasil no século XIX e XX. Nasci numa fazenda de gado e moro até hoje numa outra, de café. Também na bendita dualidade ‘café com leite’, típica da política brasileira de MG e SP. A filha inteligente e atípica para sua época quando as mulheres eram ‘do lar’ e submissas a todos: pais, irmão, maridos… a personagem Angélica toma conta de suas fazendas de café enquanto o marido se envereda pela política. Ainda que contando com os votos de cabresto, votos sob o jugo dos coronéis, ele afinal consegue se eleger. Mulherengo até! (Isso não é dualidade e sim unanimidade entre os homens, escravas, empregadas, filhos bastardos e aventuras extraconjugais!). Ela resolve, sensata e corajosamente dar seus cafezais de ‘a meia’ como dizem aqui na roça. Isso não tanto pensando cristã e socialmente, mas para evitar o êxodo e volta para a Itália de seus colonos carcamanos. Deu certo. Um deles comentou como seria para fazer a partilha dos lucros da venda do café; os gastos na ‘venda’; a proporção real do trabalho de cada família etc. Vi a referida jovem às voltas com os livros escriturais, tomando nota com sua caneta de ‘pena’; atenta a tudo que precisava ser marcado para um futuro rateio lógico quando, no pós colheita e venda, o dinheiro seria repartido, meio a meio entre dono e meeiros. Aí, nostalgicamente me veio à lembrança a figura de meu pai, contador e escriturário de toda a movimentação da fazenda entre ele, seu irmão e sócio, o tio Dego e os meeiros da fazenda. Eram mais de 40 famílias! Tínhamos venda, campo de futebol, escola, tulha, igreja, missas regulares, procissões, quermesses…. Todas as casas tinham seu jardim, horta e mangueiro para seus porcos… Plantavam feijão, batata, arroz e tinham garantida sua sobrevivência. Naquela época se comprava só farinha, açúcar, (mas, tinha a rapadura e melado!) e óleo (para temperar a salada, pois cozinhava-se com a gordura dos porcos). Depois de colhido o café, mandado para Santos e recebido, meu pai pagava o Basílio (da venda na Prata); o dr. David; a farmácia do Juarez; os adubos comprados e sempre sobrava um bom dinheirinho para todos, apesar da política errada na parte rural na década de 50 e seguintes. Senão todos, pois alguns não tinham muito juízo e gastavam com coisas supérfluas ou doenças de familiares, os meeiros saiam da ‘meia’ com dinheiro suficiente para comprar uma casa na cidade. Que bom isso, não? Na década de 60 com o advento da indústria automobilística no ABC houve uma demandada quase que geral. Não foram os fazendeiros que os ‘expulsaram’ da roça como apregoam os socialistas! Cada um queria uma vida melhor e a cidade grande lhes acenava para isso.

Bem, e a outra parte da citada dualidade? Fico me perguntando desde sempre: qual é a melhor vida? A do campo, com ar puro (ainda!), simplicidade; companheirismo, temência a Deus, (se Deus quiser vai chover! se Deus quiser vai dar boa colheita…bom preço…). Ou morar na cidade grande, em casebres, favelas, cheia de fios, ‘gatos’ sem serem os felinos, suceptíveis de grandes incêndios? roubos e balas perdidas? Enchentes e problemas sérios de transportes? Cada um sabe de si e Deus de todos! Isso há tempos atrás, pois nosso Criador parece estar ausente das vidas humanas, tão desumanizadas! Está faltando essa dualidade sadia e certa: Criatura/Criador! Que pena!

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