Caligrafia dos Valores

Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Para começar um ano novo, não adianta disfarçar: até a mais cética das pessoas assume-se supersticiosa, pensando em comer lentilhas, uvas, pular 12 vezes com o pé direito, dentre outras crendices para atrair prosperidade.

Por minha vez, aceitei a sugestão de um amigo querido e abro meu ‘ano literário’ falando de um assunto que ele me compartilhou: um vídeo da empresária Vivi Brafmann, que ficou conhecida do grande público ao ganhar a 1ª edição do reality “O Aprendiz”, em 2004. No vídeo, Vivi chama a atenção para o triste fato do tanto de seguidores que certos artistas têm em suas mídias sociais, enquanto as personalidades que trabalham arduamente em prol dos direitos humanos e causas afins parecem ser ‘esquecidas’. A empresária observa que cantores(as), atrizes e atores – dentre outras pessoas que buscam o sucesso ‘líquido’, ou baseado na sociedade do espetáculo – conquistam mais seguidores, curtidas e comentários do que personalidades que – sem precisar de holofotes – incansavelmente constroem valores determinantes para a vida. Por exemplo, Irmã Dulce, Maria da Penha e – agora vou torcer a brasa para minha sardinha!- a professora Branca Alves de Lima (criadora da Cartilha “Caminho Suave”) ficam ‘esquecidas’ ou nem sempre são honradas como deveriam.

“Isso é sobre a brutal falência cultural de um povo que aprendeu a admirar barulho, a valorizar aparência, escândalo, performance. O Brasil é terra de mulheres que revolucionaram o sistema, construíram pontes em silêncio. […] Será que estamos adoecendo enquanto sociedade? Até quando vamos aplaudir o superficial e virar as costas para o essencial?”, indaga Vivi, em um trecho do vídeo, enfatizando que uma certa cantora da atualidade é mais curtida e comentada pelos seguidores do que pesquisadoras, médicas e outras profissionais que, efetivamente, se engajaram em causas extremamente necessárias.

Pessoas que, ao invés de procurar, a todo e qualquer custo, um engajamento ‘vazio’ nas redes sociais, contribuíram para edificar a humanidade. “E isso diz mais sobre o Brasil. Quanto mais polêmico, mais engajamento”, completa Vivi. Sou obrigada a concordar com ela, pois, com grande pesar, observo essa mudança de valores que as tecnologias atuais nos trouxeram. Vivemos mesmo na ‘sociedade líquida’, conceito que Zygmunt Bauman cunhou para descrever a fase contemporânea, em que tudo escoa como água, fazendo com que laços sociais, instituições e identidades percam sua solidez e sejam descartados de um dia para o outro. É aí que reside o sucesso ‘líquido’ desses artistas. Amanhã, virá outro e toda essa euforia de agora ficará por isso mesmo. Escrever? Alguém ainda pega no lápis e na caneta para traçar palavras? É só falar nesse verbo que já se percebe a preguiça nos olhos de alguns.

O Brasil – ou o mundo?! – precisa urgente de um caderno de caligrafia! Uma caligrafia ‘educacional’, que penetre alma adentro e recorde a todos que idolatram e curtam meros corpos esculturais cantantes, que, antes de todas essas redes sociais e ChatGPTs, cientistas, engenheiros, físicos, médicos, professores, enfim, profissionais não se curvaram à atitude de trabalhar para que o mundo atual contasse com legislação como a Lei Maria da Penha; com a erradicação de várias doenças, antes fatais; e com equipamentos até então só vistos em filmes de ficção. A inteligência pode até ser artificial, mas o cérebro que a utiliza ainda é o humano. Lembre-se disto!

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