Viramos o ano! Aqui estamos lutando pelos nossos sonhos. Encerramos, em nossas cabeças, um ciclo e abrimos outro, todo novinho, cheio de expectativas. Um ciclo que promete ser mais virtuoso. Elencamos uma lista de desejos que vão desde os mais simples e nobres até os mais complexos e esnobes.
A energia forte da virada canaliza nossos pensamentos de que tudo será melhor! Dizemos uns aos outros: “Feliz Ano Novo” com muita saúde e prosperidade, mesmo que nesses momentos festivos estejamos exatamente exagerando na comida/bebida; na gastança; na sensação de que a vida é uma festa e que essa alegria contagiante seja o tom do ano vindouro trazendo tudo de bom pra nós mesmos.
Já o restante da vida toda na terra segue seu fluxo no tom exato do mutualismo. Não há desejos particulares além do de sobrevivência e perpetuação e há, intrinsecamente em cada ser, um cuidado extremo com a natureza onde vivem, para que haja harmonia e recursos para toda biodiversidade.
Na verdade, os animais, a natureza em si, sabe que essa festança humana vai repercutir em algo no equilíbrio deles. A humanidade se exclui da teia da vida. Não enxergamos ser mais uma espécie que participa desse mutualismo da criação; estamos obstantes a isso. Exatamente por isso, não pedimos algo que nos introduza na humilde forma de mais um. Pedimos melhora da nossa própria vida, nem que isso custe impactos para os recursos que ainda temos; mesmo que o preço for o extrativismo para servir o antropoceno e todo pedestal onde o homem se colocou.
Então a humanidade pede mais isso, mais aquilo, melhorar no emprego, ganhar mais, passar na faculdade, construir mais coisas, mais ruas, mais modelos de carros, mais prédios de escritórios, mais espaço para plantações, mais energia pra tocar o mundo humano, mais água para abastecer a indústria, mais cocô pelos esgotos, mais sobras, mais vidas mortas para servir de alimento, mais óleo para as máquinas que fabricam dinheiro, mais dinheiro que compra tudo e dá satisfação do dever cumprido. O labor pelo dinheiro, o dinheiro para o conforto, e o planeta para consumo!
Faz tempo que nos afastamos do divino; faz tempo que não pedimos nada que não seja para nós. Deveríamos olhar para esse mundo com mais complacência, menos ganância, menos gula pelos animais… Mais puros com a cobertura da terra; mais conscientes sobre os oceanos, montanhas, planícies e planaltos… Esse, sim, seriam os pedidos que deveríamos invocar para termos realmente um ano promissor … Uma virada de chave da humanidade em perceber que a rota da ganância é a colisão…
O ano vira no calendário, mas a natureza segue seu fluxo até onde nós permitimos. Se formos altruístas com a natureza, ainda temos chances de curar a espécie humana do ciclo vicioso de produção e consumo que o homem, só ele, criou!

Plínio Aiub
é médico veterinário especializado em animais silvestres




