Estação Ferroviária e rua Saldanha Marinho

A história é um resgate de vida onde se entrelaçam pessoas, eventos, acontecimentos e suas transformações ao longo do tempo. São João, neste item, tem, também, uma rica vivência. Vamos, pois, conhecê-la. Até meados dos anos 1950, as Estradas de Ferro eram as responsáveis pelo deslocamento de pessoas e mercadorias. Como principal via de transporte, as Estações Ferroviárias tornaram-se o centro nervoso das cidades.

Em São João da Boa Vista, a Estação Ferroviária foi inaugurada em 1886, junto com o ramal de Poços de Caldas, como parte da expansão da Companhia Mogiana e sendo fundamental para o escoamento da produção cafeeira e transporte de passageiros. Durou até fins de 1976.  A praça, em frente, era conhecida como Largo da Estação, hoje praça Rui Barbosa, e ali ficavam as carroças, charretes e “coches” para a locomoção das pessoas e mercadorias. O movimento era intenso.  Nessa região, localizavam-se as ferrarias, carpintarias, máquinas de beneficiar arroz e café e as hospedarias. Era ali, também, que os estrangeiros se fixaram: espanhóis, italianos e libaneses. A movimentação, no entorno, tornava-se maior com a chegada e saída dos trens. Eram mercadorias e passageiros que ali embarcavam ou desembarcavam. A locomoção até o centro da cidade era realizada ou pela rua São João ou pela Saldanha Marinho, os menos abastados iam a pé, levando suas malas. Os mais abonados subiam até o centro em “coches” ou charretes.

A rua Saldanha Marinho fica a um quarteirão do Largo da Estação e para se chegar a ela vai-se, até hoje, pela Rua Tiradentes e é importante ressaltar que foi na Saldanha que os primeiros comerciantes de São João se estabeleceram, eles, praticamente, iniciavam a recepção das pessoas que desembarcavam do trem da Mogiana.

Segundo Teóphilo de Andrade, “na esquina dessas duas ruas, Saldanha e Tiradentes, à direita, de quem desce, ficava, no início do século XX, a residência da família Luhmann. Na frente, da casa, funcionava a “Empresa Gráfica O Município” que editava o jornal O MUNICIPIO, fundado em 1906 por Carlos Luhmann que contou sempre com a eficiente cooperação de sua esposa Luise, pessoa conhecida pela invulgar energia e perseverança e que após a morte do esposo em 1914, soube conduzir com pleno êxito o seu jornal”, cujo lema era “Princípios Liberais e Democráticos”. A sede do jornal O MUNICIPIO ficou estabelecido aí até 1914, quando se muda para a praça Roque Fiori.

A antiga sede do jornal passou a ser, então, um estabelecimento comercial pertencente ao sr. David de Carvalho, um Empório de Secos e Molhados.

Outros importantes estabelecimentos localizavam-se neste primeiro quarteirão, como a pensão do Emílio Cereja e o bar do Júlio Hoffman.

Torna-se importante salientar que a Saldanha Marinho talvez tenha sido, uma das ruas mais longas de São João da Boa Vista. Já nas décadas de 1920/30 ela começava no muro da estrada de Ferro Mogiana, onde, ainda hoje, é o seu começo, ou seja, uma quadra acima da rua Tiradentes. Subia, em linha reta, passando abaixo da praça da Matriz, hoje praça Armando de Salles Oliveira, continuava com o nome de Saldanha Marinho, passando em frente ao antigo Mercado Municipal e ia até o final da hoje chamada rua Adhemar de Barros, ali fazia uma pequena curva à esquerda continuava com o mesmo nome, transformando-se na “estrada” que ligava São João à Águas da Prata, hoje avenida Brasília. Tinha pois, a Saldanha Marinho, seu final no entroncamento com o caminho carroçável que ia para Águas da Prata, Bairro Alegre e Fazenda Aliança.

É interessante lembrar que Theóphilo Ribeiro de Andrade narra que “em 1893 houve, aos legisladores, pedido aceito, para que houvesse o prolongamento da rua Saldanha Marinho em direção às Fazendas Aliança, Serra, Retiro e outros sítios. A execução dos serviços concernentes às estradas correu por conta do cel. José Procópio de Azevedo Sobrinho, e de outros proprietários rurais beneficiados com o melhoramento desta rua”.

A rua Saldanha Marinho, com o correr dos anos, ficou reduzida em seu comprimento. “Em dois de maio de 1940, o então prefeito Henrique Cabral de Vasconcellos decretou que o trecho “depois da Praça da Matriz” deveria receber o nome de Adhemar de Barros, digno de homenagem em vida. A razão de tão nobre decisão foi embasada na calorosa relação do político com o povo sanjoanense.

O trecho final da antiga Saldanha Marinho, na década de 1960, ganhou outro nome: avenida Brasília, que se iniciava no final da Adhemar de Barros e seguia em direção à estrada, em terra batida, que levava a Águas da Prata passando pelo Bairro Alegre.

A história é dinâmica. O hoje é, pois, resultado de atos, ações, interações, vivências inúmeras onde nomes, acontecimentos, pessoas anônimas ou não nos deixam de herança sua marca, seus pesares, suas alegrias, conquistas, construções, ideias e verdades. Fizeram São João da Boa Vista e nós a fazemos hoje.

ps: Saldanha Marinho foi um dos principais líderes republicano do Brasil, ajudou a fundar o Partido Republicano e foi constituinte na Constituição de 1891.

 

Maria Célia de Campos Marcondes é membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista

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