A magia do futebol e o paradoxo dos horrores

A Copa do Mundo de 2026 prometia ser a maior celebração da história do futebol. Estádios monumentais, tecnologias de última geração, milhões de torcedores atravessando oceanos, quarenta e oito seleções reunidas em torno daquilo que, talvez, seja a linguagem mais universal do planeta: uma bola rolando sobre a grama. Durante algumas semanas, povos que jamais aprenderam a pronunciar corretamente o nome uns dos outros descobriram que um gol pode dispensar tradução. O futebol continua possuindo essa magia extraordinária. Sem dúvida, é um dos poucos fenômenos culturais capazes de unir, ainda que por noventa minutos, crianças, idosos, pobres, ricos, cientistas, operários, artistas e camponeses sob uma mesma emoção.

Contudo, bastou que a bola começasse a rolar para que, novamente, as sombras ocupassem espaço ao lado da festa. Em pleno século XXI, quando a humanidade deveria sentir vergonha de qualquer forma de discriminação, os cânticos racistas voltaram a ecoar em alguns estádios, lembrando que a evolução tecnológica nem sempre caminha ao lado da evolução moral. O racismo continua sendo a maior derrota possível de qualquer competição esportiva na medida em que fere a própria ideia de humanidade. Além disso, na Copa do Mundo de 2026, o futebol foi um balcão de negócios obscuros e elitistas.

Como se isso não bastasse, a Copa também assistiu a um episódio que levantou inquietações sobre a autonomia do esporte. A intervenção pública do presidente Donald Trump junto à FIFA em defesa da revisão do cartão vermelho aplicado ao atacante norte-americano Folarin Balogun provocou intensa controvérsia internacional. Ainda que existam justificativas jurídicas apresentadas pela FIFA para a decisão, permanece inevitável a pergunta: as regras são realmente iguais para todos? Enquanto isso, do lado de fora dos estádios, outra partida era disputada silenciosamente. Ingressos vendidos por valores proibitivos transformaram o sonho de milhares de famílias em privilégio para poucos. Hotéis multiplicaram preços. Restaurantes descobriram que um turista apaixonado paga quase qualquer quantia. Serviços elementares tornaram-se artigos de luxo. Em muitos lugares, o visitante deixou de ser um convidado para tornar-se apenas um consumidor momentaneamente lucrativo. A Copa movimentou bilhões e subordinou um espetáculo esportivo à lógica, absurdamente mesquinha, da exploração econômica.

Lembro-me que, durante a minha infância, o futebol era praticado nas ruas, nos campinhos de terra, nas praças, nas periferias e nos quintais improvisados. Na nossa simplicidade, carência e ausência de materiais esportivos, duas pedras serviam de trave e uma bola gasta bastava para produzir felicidade. Atualmente, as maiores competições do futebol profissional estão cada vez mais distantes da essência do esporte mais amado do planeta, sendo que os grandes dirigentes transformam esse encanto em mera mercadoria.

É impossível falar do futebol contemporâneo sem lembrar que a FIFA carrega um histórico de denúncias, investigações e crises institucionais que, ao longo das últimas décadas, comprometeram sua credibilidade perante boa parte da opinião pública mundial. Não obstante, apesar de tantos problemas, o maior perigo chama-se fanatismo. Há pessoas que conhecem a escalação completa de dezenas de clubes e desconhecem os problemas sociais da cidade onde vivem. Sabem o número de gols de um atacante ao mesmo tempo em que ignoram o número de crianças fora da escola. Discutem durante horas uma falta marcada, enquanto permanecem indiferentes diante da fome, da violência, da destruição ambiental, das guerras, do racismo, da desigualdade e da perda de direitos fundamentais.

Entendo humildemente que o esporte existe para enriquecer a vida, não para substituí-la. Nenhum campeonato pode valer mais do que a dignidade humana. Nenhuma rivalidade esportiva deve ser maior que o respeito entre as pessoas. Nenhuma taça justifica o esquecimento das tragédias que continuam acontecendo do lado de fora dos estádios. Portanto, continuemos a celebrar um belo drible, uma defesa impossível, um passe genial ou um gol inesquecível. Continuemos ensinando às crianças que o futebol pode ser uma magnífica escola de disciplina, cooperação, amizade e superação. Contudo, façamos tudo isso sem sucumbir à alienação e sem abdicar do pensamento crítico.

 

 

Antonio Artequilino da Silva Neto é doutor em Linguística, mestre em Educação, historiador, professor e escritor

YouTuber – “Pensar com Arte – quilino”: https://www.youtube.com/@arte-quilino

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here