Em 2020 andei publicando aqui e acolá a crônica “O Natal do bichinho”. Estávamos então em plena onda da Covid, essa peste que assolava o mundo inteiro. O bichinho infernizava nossa vida, esculhambava nosso pulmão, lotava os hospitais, enchia os sepulcros, espalhava a dor. Apesar de tudo isso, como era Natal, ainda não depúnhamos as armas, ainda íamos à luta, ainda acreditávamos numa virada. Haveríamos de vencer esse monstrinho com coroa de espeques. Nossa principal arma de defesa e nosso principal escudo de proteção vinham do próprio vírus coroado, de pedaços dele, vinham da vacina. A dedicação e o saber de cientistas do mundo todo, em aliança com a capacidade e os interesses de laboratórios de todo o mundo, tornaram possível imunizar grandes parcelas da população do orbe, ainda que, em certos casos, tendo de superar a incúria e o atraso até mesmo dos governantes, agora punidos pela lei que buscaram burlar tentando um golpe de Estado.
Foi bonito ver nas páginas dos jornais, ouvir nos rádios, ver e ouvir nas telas dos televisores, com atenção redobrada, o movimento das curvas. Quando subiam na vacinação, baixavam na infestação. Se as agulhas entravam nos braços, menos pessoas entravam nos hospitais. Os mortos pela peste de milhares passavam a centenas, de centenas caíam para dezenas. Havia a crença de que logo chegariam a poucas unidades e enfim a zero.
Mas – ó perversa conjunção adversativa! – mas deu-se que em muitas partes do mundo ou o bolso estava vazio para comprar vacinas ou a cabeça vazia para entender que era imperativo tomá-las. E aconteceu que bandos de não vacinados tornaram-se presa fácil para a volta do bichinho. E ele voltou. Ardiloso como todo diabete, disfarçou-se com nova cara, adotou nome sofisticado de letra grega, passou a se chamar Ômicron, mas no fundo é o mesmo vírus velho de guerra em nova cepa gerada por mutação. E as armas que temos para o combater foram também as nossas conhecidas vacinas, viessem elas do Biden ou do Xin, do Dória ou do Putin, da solene Oxford ou da austera Heidelberg. Que fazer? Vacinar! Já ficou provado que a nova cepa se originou da intensa transmissão do vírus em locais do planeta de minguada vacinação por falta de recursos ou por miséria mental. Seria preciso fazer uma grande corrente de solidariedade internacional para inundar de vacina os países pobres e uma verdadeira revolução cultural para esclarecer os pobres de espírito dos países ricos sobre a urgência de se vacinarem. Trump poderia ser o garoto-propaganda dessa campanha de esclarecimento, já que ele próprio se declarou trivacinado.
Estávamos, portanto, numa encruzilhada. Ou cerrávamos fileira com a razão e a solidariedade e venceríamos de vez o pérfido coroado ou ficaríamos na lamúria inútil dos perdedores na batalha da vida.
Acabamos vencendo a batalha. Após um período de negacionismo, veio o novo governo com a defesa impertérrita da ciência. O bichinho foi controlado. A vacinação tornou-se rotina em nível nacional. E como agora é Natal, tempo de esperança, tempo de renovação dos votos de felicidade, tempo de nos darmos as mãos, tempo de comunhão fraterna e de celebração da vida, enxotemos o lamento, celebremos a vitória. É Natal. Com ou sem bichinho. De preferência, sem.
O importante é comemorar o Natal, é ouvir o galo cantar, tendo expulsado a noite com os primeiros raios da aurora, como dissera há 2 mil anos o poeta Ovídio. Na cultura balear de minha avó maiorquina havia uma exortação à participação na ceia de Natal. A comilança não incluía peru, não tinha tênder. O grande quitute era a torta de Natal, “la coca de Nadal” (lê-se côca, não cóca), massa levemente adocicada coberta com erva-doce e com generosas rodelas de uma linguiça picante temperada com pimentão seco ao sol e moído. Era preciso varar a noite desperto, caso contrário não saboreava a torta: “Quem não acende o fogo nas matinas, / Nas matinas de Natal, / As tortas não farão mal / Nem poderá dizer se são finas”.

Sérgio Castanho
é escritor, cronista, doutor em filosofia e história da educação, professoar na Unicamp, titular da ACL e membro fundador da IHGGC

