No escuro pode morar a fé

Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Para a gente, que é adulto mas convive com crianças, parece estranho observar o medo do escuro que algumas têm. Afinal, quais perigos podem existir em um ambiente sem luz? Neste caso, refiro-me a espaços internos, como nossa própria casa, a casa dos avós ou a escola, pois nas vias públicas, reconheço que andar à noite sem iluminação apresenta riscos reais de acidentes ou agressões! Mas o tal medo do escuro envolve não só os pequenos – alguns adultos também se sentem incomodados quando “cai” a energia elétrica.

Um dia desses, ao ficar com minha netinha, pensei no fator desencadeante do medo do escuro. Constatei, então, que a própria mídia se encarrega de instalá-lo no imaginário dos pequenos. Os filmes de suspense e terror, ou até mesmo um “inocente” episódio da Wandinha, podem contribuir para impressionar mentes mais sensíveis. E, ao ficar em um cômodo escuro, é como se aquelas imagens voltassem ao cérebro, descortinando seres sinistros ou monstros no feitio das sombras projetadas nas paredes. Tudo isso ainda piora se, subitamente, soar algum barulho, como a buzina de um carro, um objeto que cai ou um eletrodoméstico que “apita”, na volta da energia. Nestas horas, não tem como negar que o medo nos paralisa!

Ao ficar no escuro, é como se tudo viesse à tona – principalmente se a criança já testemunhou velórios, sustos pregados por alguém fantasiado ou já desenvolveu fobias (e, convém lembrar, há quem tenha fobia até de palhaços!). O próprio cérebro cuida de recriar esses medos na ausência da luz ambiente. Porém, lembro-me da cena de um filme dos anos 1980 – cujo nome não me recordo – em que um pai justificava para o filho pequeno que não há razão para temer o escuro. No quarto do menino e com a luz acesa, ele pedia à criança para olhar bem ao redor, e prestar atenção a tudo que havia ali. Depois, apagava a luz por uns instantes e, ao reacender, perguntava ao menino: “Alguma coisa mudou de lugar? Tudo não continua exatamente igual? Logo, não há por que ter medo do escuro!” Particularmente, eu ainda penso que toda noite tem estrelas – e toda estrela precisa do escuro para cumprir seu papel, tal como nós precisamos da adversidade para encontrar a fé. A propósito, recentemente ouvi uma parábola, que muito me comoveu, a respeito do que é ter fé. Uma menininha perguntou ao pai o que é a fé. Pegando-a pela mão, ele foi até uma escada que descia para um depósito da casa. Fechou a porta, desceu sozinho, deixou-a a três degraus do chão e apagou a luz. No escuro, perguntou à filhinha: “Você tem coragem de pular?” A garotinha hesitou, mas o pai foi firme e pediu que ela pulasse, pois ele não a deixaria cair. E a menina pulou, no escuro, direto para o colo do pai, que a abraçou e respondeu: “Isso é ter fé. É saber que, mesmo no escuro, você não precisa sentir medo, pois há alguém que não vai te deixar cair.” Bela parábola! Será que nós, humanos, nos lembramos disso nos momentos obscuros da nossa vida? A decisão é 100% nossa, portanto, vamos refletir e amenizar nossos escuros, pela fé.

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