Por Mariana Mendes De Luca | @marianamdeluca

A adulteração de bebidas destiladas pelo metanol, ainda ecoa nos mais íntimos grupos de amigos que se sentem inseguros (e com razão) em consumir bebidas de procedência desconhecida.
Apesar do vinho contar com o benefício de estar fora da lista oficial, o contrabando o coloca em estado de alerta para falsificações, e esse cenário escancarou o problema real sobre os duvidosos benefícios do vinho de descaminho, aquele que entra no país sem pagar todos os impostos.
Hoje, se somados, a quantidade de vinho de descaminho comercializado, ultrapassa a litragem produzida pela própria vinícola, provando que no “achadinho” que o seu conhecido trouxe da fronteira, tem também, vinhos falsificados.
Mas então por que tomar vinho falso?
A verdade é que os clássicos vinhos argentinos se tornaram símbolo de status entre aqueles que se preocupam com a imagem de que bebem bons vinhos.
Hoje, se eles aparecem na mesa, todo mundo diz: “esse vinho é bom!”, com a propriedade de quem entende do assunto. Mas a verdade é que quase ninguém lembra o nome do produtor ou o tipo de uva; o encanto está no rótulo. O nome virou personagem principal e o resto virou figurante. Eles se tornaram a Ferrari líquida dos jantares.
Porém isso não é culpa do vinho, mas do fato de que o imposto dita o gosto do brasileiro e driblá-lo, dá um gostinho ainda mais especial ao vinho.
Aqui eu não questiono a qualidade do vinho, já que neste mundo, a classificação como defeituoso, pobre, aceitável, bom, muito bom ou excelente, acontece por intermédio de quatro princípios: equilíbrio, intensidade, persistência e complexidade. E de fato, os verdadeiros clássicos argentinos se enquadram com maestria nesses quesitos, o que justifica ocuparem o posto de qualidade que ocupam.
Mas em um país onde o bolso define o seu terroir favorito, o prazer de brindar com algo que parece exclusivo é atraente, e não nos deixa enxergar que existem outros vinhos que são tão bons quanto, e muitos outros que são ainda melhores, pelo mesmo valor que o pago pelo vinho contrabandeado.
Provando que no fim das contas, tomamos mais rótulos dos nossos vizinhos não só porque são bons, mas porque são os que cabem no bolso, já que temos um acordo onde os impostos desses vinhos são menores se comparados ao que estão do outro lado do oceano.
É o terroir da economia! E talvez encontramos aqui, o verdadeiro sabor que o brasileiro ama, o da vitória contra o imposto.
O status e a economia nos dão a sensação de ter descoberto um segredo, mesmo que todo mundo já saiba qual é.
Então no brinde de hoje, eu sugiro que ao comprar um novo vinho, experimente o prazer de escolher um novo, diferente dos que você provou, mantendo o valor que você investiria no inicial. O prazer de aguardar a próxima taça, com certeza é maior do que pagar mais barato em um vinho contrabandeado.
Um brinde e até A Próxima Taça!




