Outro dia, olhos grudados na telinha, sou todo atenção ao comentarista, por sinal um craque do comentário político. Estou assistindo, sem perder uma vírgula, a um programa da Globo News. O fera comenta a questão das penas aplicadas aos réus do golpe e de repente sai-se com esta: “A dosimetria não se adéqua aos pobres diabos que participaram do quebra-quebra em Brasília”. Dosimetria? Eu me lembro do meu mestre de Direito Penal Marino Falcão dizendo que para o crime “x” a lei prevê uma pena de 2 a 8 anos de prisão. E logo acrescentava: “Quem vai dosar a pena é o juiz, entre o mínimo e o máximo previstos em lei. Isto se chama dosimetria”. Algumas vezes o prof. Marino, tido como “o falcão da promotoria” por sua oratória eloquente, dizia que o juiz aplicava a pena dentro de um “elastério” que ia de 2 a 8 anos. Grande Falcão. Terminou sua carreira como desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo.
O povão, que não teve condições de cursar a faculdade, na primeira vez que ouve não sabe o que é dosimetria. Mas de tanto os repórteres e os comentaristas da tevê martelarem a palavra, a gente simples acaba apreendendo o que é a tal dosimetria. E acaba usando essa palavra. Nos botecos da vida, entre uma purinha e outra, o orador da noite desembucha a nova pérola recém aprendida – dosimetria pra cá, dosimetria pra lá. Só elastério que não, pois não saiu na tevê, então não vale.
O mesmo acontece com adéqua. As pessoas que tiveram pelo menos a escolaridade básica sabem (ou deveriam saber se morassem em Júpiter) que o verbo adequar (ou adequar-se) é um verbo defectivo e que não se conjuga na terceira pessoa do singular e do plural. Mas nem todo mundo tem a escolaridade básica. E os que a têm, quase nunca chegam a conhecer os verbos defectivos. Daí que de agora em diante o certo é adéqua. E a regra gramatical que vá para o diabo que a carregue. Agora, para mim, é mais difícil adequar-me ao adéqua. Vou consultar o Tom Suárez Abreu, meu confrade na Academia Campinense de Letras, gramático dos bons, a ver se me proíbe essa liberalidade linguística.
Outra coisa que me enche a cabeça é o verbo implicar. Aprendi com o mestre dos mestres da língua, o professor Francisco Ribeiro Sampaio, que não se deve dizer “isso implica naquilo”. “É errado, moço. Diga: isso implica aquilo – e estará na boa companhia de Frei Luís de Sousa”. Não sei não, querido mestre que Deus o tenha. Acho que, data venia, em bom latim, essa regência do implicar em pegou. E o povo todo se junta aos do rádio e da tevê e passa (ou continua) a usar “implicar em”. No meu caso isso implicará numa mudança na minha escrita. Que os revisores do O MUNICIPIO não impliquem comigo e aceitem de boa mente a alteração. Sei não. De repente a carga dos anos me leva a usar a velha e boa regência: implicar o.
A regra maior para mim é a de que quem faz a língua é o povo que a usa. Claramente, existem aberrações que repudio junto com o Tom, com meu amigo Alexandre, linguista já falecido, e com meu professor no Culto à Ciência e colega na PUC-Campinas, o nunca assaz louvado prof. Sampaio. Jamais aceitarei dizer “Eu sou um dos que acredita neste país”. O verbo aí concorda com “dos que” e não com “um”. Portanto: “Eu sou um dos que acreditam neste país”. Para tirar a prova disso, basta inverter a ordem da frase: “Dos que acreditam eu sou um”. Ficou claro? Então, querido povão, vamos falar direitinho a língua. Existem cláusulas pétreas, como dizem os juristas, e uma delas é a concordância entre o sujeito e o verbo. Não pode dizer “Nós quer”. Tem que dizer “Nós queremos”. É cláusula pétrea, não da Constituição, mas da língua.
Há mais, muito mais. O que ficou dito, porém, já dá conta do meu recado, que oscila entre a rigidez das normas fundantes da língua e a flexibilidade de seu uso criativo pelo povo. A língua não pode ser engessada. Nas seiscentas páginas do seu monumental romance “Grande Sertão: Veredas” Guimarães Rosa criou mais de duas mil novas palavras (neologismos), segundo contadores confiáveis e com tempo sobrando para tais tarefas sonolentas. Se o imenso prosador Rosa pode, por que não poderia o seu João do boteco da Rocinha? E se este se referir a seu digno estabelecimento como “buteco”? Tenho certeza de que ele não estaria sozinho. Milhares de joões e de josileis frequentam os butecos deste país. Existe até uma promoção de “comida de buteco”. Ou será “cumida”? Não sei. Tô fora.

Sérgio Castanho
é escritor, cronista, doutor em filosofia e história da educação, professoar na Unicamp, titular da ACL e membro fundador da IHGGC

