Por Mariana Mendes De Luca | @marianamdeluca

Há poucos dias, conversei com uma italiana produtora de vinhos com garrafas numeradas, vindos a partir de pequenas produções do sul da Itália. Enquanto ela me servia aquelas maravilhas, arriscava-se no português para me fazer entendê-la, defendendo que na produção de seus vinhos não existia influência alguma do carvalho.
Minha surpresa foi, além dos vinhos fantásticos que ela me servia, o fato dela recriminar o que tantos enólogos e entusiastas amam: a presença marcante do carvalho na elaboração do vinho. Ela, produtora de vinhos de alta qualidade, defendia a ideia de que a influência da madeira no vinho rouba o protagonismo dele.
Aquilo me fez refletir sobre o assunto, pois, analisando o ponto de vista dela, me fazia sentido. Então, procurei entender mais sobre o tema da forma como melhor se entende de vinho: provando mais rótulos e tirando as minhas próprias conclusões sobre o assunto.
É ideal entendermos que a técnica de envelhecer o vinho no barril de carvalho é muito tradicional e pode agregar muitas qualidades a ele, além de aumentar seu potencial de longevidade e guarda. Mas também é importante sabermos que a qualidade final desse vinho é uma combinação entre a uva, o processo de vinificação e a influência do carvalho. Ou seja, envelhecer o vinho no carvalho não tem seu sucesso isolado, depende de um conjunto de ações e, como tudo que se faz em conjunto, essa técnica pode contribuir ou prejudicar todo o processo.
Em casos de vinhos com mais estrutura, como os elaborados a partir da casta Cabernet Sauvignon, por exemplo, seu envelhecimento no carvalho resultará em bebidas densas e com potencial de guarda. Já em vinhos frutados e frescos, a técnica pode ser dispensada, valorizando o gosto pessoal de cada um, onde se escolhe por aromas amadeirados ou pelo frescor das frutas.
Houve um tempo em que se acreditava que o carvalho ‘salvaria’ qualquer vinho. E, a partir do momento em que ficou entendido que vinhos de baixa qualidade não se tornariam de alta qualidade apenas por terem passado por barricas de carvalho (apesar das inúmeras tentativas), começaram a surgir controvérsias quanto ao uso dele.
O uso exacerbado da madeira que algumas vinícolas vêm praticando tem nos apresentado os efeitos negativos do carvalho, que resultam em um vinho completamente desequilibrado, com taninos agressivos e um sabor excessivamente amargo. Esse excesso desfavorece a expressão da fruta. Podendo ser comparado ao açúcar no café, onde o dulçor rouba a cena do próprio café, o amadeirado rouba o protagonismo do vinho.
Esse movimento de questionar a influência do carvalho vem surgindo no mundo do vinho recentemente e nos devolve uma prática que nossos antepassados faziam: a armazenagem dos vinhos em ânforas. Técnica essa que tem obtido vinhos altamente valorizados, por meio do uso dessas peças em cerâmica para a vinificação deles.
Essa arte é o vinho nos mostrando que o futuro está prestes a repetir o passado. E a nós, entusiastas, cabe a deliciosa tarefa de conhecer o que mais nos agrada com conhecimento. Por isso, sigamos nessa caminhada.
Um brinde e até A Próxima Taça!




