Vinho do Porto: o vinho que não é do Porto

Por Mariana Mendes De Luca | @marianamdeluca

A primeira vez que provei o vinho do Porto foi em sua terra natal, na rua mais “pega turista” de Lisboa e no primeiro gole eu disse: “parece que tem cachaça nesse vinho”. E, de fato, tinha!

Isso porque o vinho do Porto é um vinho fortificado, produzido em Portugal e seu processo de fermentação é interrompido ao ser acrescentado no vinho aguardente vínica. Por isso seu teor alcoólico é alto, em torno de 18%, e o dulçor que ele possui é o açúcar residual da fermentação.

O fato engraçado desse vinho é que apesar do nome, o vinho do Porto é produzido no Douro e não no Porto. E para entender essa curiosa história, vamos voltar alguns séculos atrás, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal.

Buscando vinhos alternativos aos franceses, os ingleses descobriram os vinhos do Douro mas, todas as vezes que eles cruzavam o Canal da Mancha de volta para casa, os vinhos chegavam fermentados ou oxidados por conta da longa viagem e de suas condições precárias, alterando sua qualidade e sabor.

Foi então que os produtores começaram a fortificar o vinho adicionando aguardente e ao interromper a fermentação, preservavam a bebida durante a travessia.

Vencido o problema do transporte, eles se depararam com um problema geográfico, a região do Douro é muito montanhosa o que dificultava a comercialização das mercadorias no local.

Então os produtores, mais uma vez, encontraram uma solução. Ao produzirem o vinho no Douro, o levavam para Porto e deixavam os vinhos envelhecendo na cidade conhecida pelo comércio. Essa estratégia facilitou a comercialização desse vinho pela Europa e as pessoas passaram a se referir a ele como “o vinho do Porto”, pois era ali que o buscavam.

Foi quando um novo desafio surgiu, começou a haver adulterações do vinho e em 1756 surgiu a “Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”, restabelecendo a qualidade do produto. E no ano seguinte a região recebeu uma denominação que garante que o vinho do Porto apenas pode ser produzido na Região Demarcada do Douro, surgindo então sua Denominação de Origem (D.O.).

Hoje existem três principais vinhos do Porto. O Ruby que é um tinto escuro, mais frutado; o Tawny, um tinto com coloração mais clara; e o Branco, que envelhece por menos tempo, possibilitando assim, diversas harmonizações bem-sucedidas com eles.

Por conta de seu dulçor, o vinho do Porto acompanha perfeitamente sobremesas, chocolates e um bom cafezinho. Para uma boa harmonização, a sugestão é acompanhar um doce tão doce (ou menos) quanto o vinho, para que assim, a sobremesa não roube a cena dessa preciosidade que esperou anos para estar em nossa mesa.

Eu gosto de brincar que o vinho do Porto é como a nossa cachaça, mas, ao contrário. Enquanto a cachaça nos abre o paladar antes da refeição, o vinho do Porto vem finalizar com maestria e com uma boa sobremesa.

Um brinde com a cachaça dos portugueses e até A Próxima Taça.

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