Prometi Nunca Mais Reclamar

Por Luciana de Andrade Ferreira Gomes
[email protected]

Houve um dia na minha vida em que fiz uma promessa: nunca mais reclamar. Foi após uma experiência marcante; daquelas que nos tiram do eixo e nos jogam de cara com o que realmente importa. Só que… Ah, doce ilusão! Humana sendo, não resisti.

Imagina o preço do ovo e da carnes, então ? O do ovo ultrapassa os limites da sanidade e a carne parece joia rara em vitrine. O trânsito? Misericórdia! Tem dia que a pé seria mais rápido.

Até pensei numa bicicleta elétrica; mas nesta cidade, ser assaltada é quase um risco

calculado. E a bicicleta normal? Chegar suada ao trabalho não dá, convenhamos. É… a promessa, aquela de nunca mais reclamar: durou bem menos do que eu imaginei e gostaria.

Foi num hospital escola que essa promessa nasceu. E não há espaço mais intenso que esse. Hospital já é território de emoções fortes; agora, hospital escola… Ali moram orações que atravessam as paredes e tocam o céu. Vi cenas que não esqueço. Por um lado, a maternidade, um lugar mágico; sinto algo de sagrado em ver bebês chegando ao mundo. Uns chorando, outros dormindo e, aqueles raros que parecem sorrir, como se agradecessem por estar aqui.

Mas, entre a chegada da vida e as dores que ela traz, minha própria história também foi se desenhando. Depois de uma das maiores alegrias da minha vida, começou uma dor. A coluna, ah, essa coluna! Já me levou a hospitais; me colocou em cadeira de rodas, me arrancou lágrimas com um movimento errado. Fui de médico em médico; tentei fisioterapia, exercícios, meditação, mantras … Tudo! Um dia, cansei. Peguei a bicicleta e fui. Livre. Leve. Quase sem dor. Quando ela voltava, fingia que nem era comigo.

Parei de reclamar para os outros. Ninguém merece quem repete a mesma ladainha por anos, não é? Mas, comecei a pedir ajuda. Para levantar da cama, para colocar o propé,   aquela proteção do sapato, quando chegava no consultório. Difícil manter postura perfeita na minha profissão.

Quando a adrenalina bate e o dente do siso aparece girado, eu giro junto. A coluna que lute! E ela luta mesmo; até demais. Recentemente, um médico me disse que minha coluna parece a de uma pessoa de 80 anos: desgastes, abaulamentos, artrose… A conta chegou!!!

Então, aqui estou, num centro de reabilitação. Acordo cedo, enfrento metrô lotado, ajusto minha agenda com sacrifício. E, mesmo assim, só consigo agradecer. Aqui vejo pessoas que não conseguem andar. Pessoas que sorriem com mais verdade do que muita gente que corre livre por aí. Aqui, mais do que nunca, entendo: a vida é feita de contrastes. E o mundo… o mundo é da cor que a gente escolhe pintar.

Mesmo entre uma reclamação e outra, sigo achando a vida linda. Colorida como o arco-íris que aparece depois da tempestade e, que só aparece porque houve nuvem; porque houve chuva.

E, no fim das contas, entre a dor que ensina e a alegria que alivia, sigo tentando.

Reclamando um pouco; agradecendo mais!!

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here