Para pensar a ética e praticar a moral

Desde que os primeiros seres humanos como nós surgiram na África há 250 mil anos com a capacidade de saber e de refletir, uma dúvida foi se fixando aos poucos em seu cérebro: como distinguir o que é certo ou o que é errado? E mais: como se comportar de modo certo e evitar agir de modo errado?

Demorou para que a resposta a essa dúvida aparecesse. Foi só há uns poucos milhares de anos que se começou a pensar sobre isso. E surgiu a moral, que fornece as normas e valores que orientam a conduta humana num determinado grupo social, como base para nossas escolhas e decisões dentro dessa sociedade. E logo surgiu a ética, que é uma parte da filosofia. É a reflexão sobre as normas e valores da moral, buscando sua origem e validade.

Há pouco me caíram às mãos três livrinhos que me ajudaram a elucidar a questão que me batia à porta do pensamento com a urgência dos problemas vitais: a ética e a moral. Eram obras de três pensadores que figuravam nos manuais de história da filosofia como os representantes do “estoicismo romano”: Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio.

Para Motta Pessanha, “Sêneca foi sobretudo um moralista”. Nascido em Córdoba, território do que seria a Espanha, no ano 4 antes de nossa era, Sêneca faleceu em Roma em 65 d.C. Foi o principal filósofo do estoicismo romano. Tenho em mãos o livro de Sêneca “Sobre a Brevidade da Vida”, que trata dos maus hábitos que levam o homem a desperdiçar o tempo. Ora, o tempo é sinônimo de vida. Portanto, o homem desperdiça a própria vida, quando poderia, pela virtude, elevá-la ao que há de mais nobre.

Muitas vezes senti que não deveria ir a certo evento, que ia apenas para não ficar mal, sentia que estava perdendo meu tempo, que melhor faria se pesquisasse um assunto que me preocupava. Só agora aprendo com Sêneca o significado de tudo isso.

Epiteto é outro estoico romano, nascido onde hoje é a Turquia por volta dos anos 50 a 60 de nossa era e falecido no oeste da Grécia atual, com cerca de 80 anos. Foi escravo. Aprendeu filosofia como assistente das aulas de Musônio, o Etrusco.

Dele acabo de ler “A Arte de Viver”, em cujo prefácio Lúcia H. G. Maya diz que seu estoicismo é muito relevante por ter seu núcleo na moral. Mais do que uma teoria, é uma norma diretamente ligada à vida, uma prática de viver com sentido e método. Epiteto diz que temos poder apenas sobre aquilo que está relacionado a nós mesmos, como a nossa opinião, nosso objetivo, desejo e aversão. Minha opinião a mim pertence, ninguém pode obrigar-me a mudar. Quanto ao que não é nosso, como o corpo dos outros, sua propriedade, sua reputação e seu cargo, nada podemos sobre eles. A partir dessa distinção, Epiteto constrói sua moral, sua “arte de viver”.

O trio do estoicismo romano completa-se com o imperador Marco Aurélio. Nascido no ano 121 de nossa era, torna-se imperador em 1961 aos 40, nomeado por seu tio o imperador Aurélio Antonino. Fiel ao caráter prático da gente romana, Marco Aurélio foi menos um teórico da filosofia estoica e mais um moralista.

Abro o primeiro livro das “Meditações” e faço a lista das virtudes que aí encontro como herdadas pelo rei-filósofo: honradez e serenidade; discrição e varonilidade; religiosidade e generosidade; educação excelente em casa; aturar fadigas e precisar de pouco; não querer futilidades; não crer em milagreiros e na expulsão de demônios; familiarizar-se com a filosofia; corrigir e cultivar o caráter; não se exibir para ser admirado; ler com atenção; independência pessoal; decidir com base na razão; enfrentar o sofrimento sem se abater; benevolência; tomar como exemplo a tradição familiar; tolerância para com os ignorantes; exigir respeito e viver em harmonia; evitar a aparência de cólera; ser sereno e afetuoso; elogiar sem alarde; ser erudito mas discretamente; não criticar publicamente erros de linguagem, só os corrigindo, com delicadeza, pelo seu uso correto; notar que os tiranos usam hipocrisia e que aos romanos, aos patrícios, falta afeição; não usar o excesso de trabalho como desculpa para faltar aos deveres sociais; dar amor verdadeiro aos filhos; levar em conta as queixas dos amigos; amar a família, a verdade e a justiça; conceber o poder político com respeito à liberdade dos súditos; ter domínio de si próprio e não titubear; ter fortaleza para não sucumbir aos males; ser reto, não alternando a gargalhada e a cólera; enfim, obediência a vida toda aos ensinamentos paternos e às prescrições divinas.

Simples assim: quando nos pomos a pensar sobre os princípios que fundamentam as normas e os valores da conduta humana num grupo social, estamos pensando a ética; e se nos ocupamos da prática dessas normas e valores da conduta humana em determinado contexto, estamos na área da moral. Faz só 2 mil anos que é assim.

Sérgio Castanho é escritor, professor de filosofia e história da educação na Unicamp, ex-secretário de cultura de Campinas e titular da academia ACL e do instituto histórico IHGGC.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here