O ocaso é um dos momentos mais belos do dia, quando o sol começa a se pôr no horizonte, trazendo todo o esplendor do crepúsculo, tingindo o céu com os tons quentes dos alaranjados ao vermelho intenso. Momento poético da despedida do dia, dando lugar à noite e aos astros luminosos que a enfeitam. No entanto, subjetivamente, o entardecer pode ser associado ao declínio da vida, dos tempos que marcam a chegada da velhice, as limitações do corpo e da mente.
Tudo isso, tanto a maravilha do momento crepuscular, quanto a chegada dos dias sombrios, serviram de inspiração aos poetas e pensadores. “Que cores são estas que tingem o entardecer? / Que doce nostalgia inspira este dégradé? / Uma estranha impressão brota do íntimo/ Algo que alguns chamam Déjà vu / Não há como não se sentir ínfimo / Quando o universo abre seu baú… (Hermes Fernandes, psicólogo, teólogo e escritor).
“Aquieta-se o silêncio na tarde. / A noite, às portas, chega sem alarde. / O entardecer suave de mais um dia…/ Calmaria… calmaria. / Dia feito! / Perfeito. / Desabita-me. / Apaga-se… / Foi-se mais um dia. (Rosangela Calza, escritora catarinense}. “Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar.” (Caio Fernando Abreu, jornalista e dramaturgo brasileiro).
“E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua completa cintilância sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice…” (Jack Kerouac, escritor estadunidense).
“Peguei carona no céu colorido / Já são seis horas, posso imaginar / Se uma cor tivesse escolhido / Seria o tom desse seu olhar. / Agora aqui, sentado na grama / Vou esperando o Sol tocar no chão / E todo dia esse final de tarde / São paisagens do meu coração. / Eu quero ver / Quando o Sol se pôr / E a brisa que passar por mim / E que me levará pra você. / As estradas são iguais diamantes / Delimitando todo mundo azul / Daqui de baixo estão tão distantes / Abrem caminho para o pôr do Sol. / Final de tardes de tantos mistérios / Faço de tudo para descobrir /tantos mistérios / Do seu sorriso eu crio um império / Que de tão grande parece não ter fim.” (Fauzi Beydoun – vocalista e compositor).
O poeta Manuel Bandeira vê no crepúsculo um lenitivo para a saudade: “O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo / Que me adoça o pesar de estar em terra estranha. / E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo, / Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo, / Fitando no horizonte a linha da montanha. / A montanha é tranquila e forte, e grande e boa. / Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar / (Tanto a saudade a um tempo acalenta e mágoa!) / Que tu, na doce paz da tarde que se escoa, / Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.”.
E, nos versos do poeta português, Fernando Pessoa, uma semelhante saudade não consegue ser aplacada ao entardecer: “Ah, o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades. / E a mão de mistério que abafa o bulício, / E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe / Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida! / Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios / E que misterioso o fundo unânime das ruas, / Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, / Ó do «Sentimento de um Ocidental»! / Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas. / Que nem são países, nem momentos, nem vidas. / Que desejo talvez de outros modos de estados de alma / Humedece interiormente o instante lento e longínquo!”.
Na canção do cantor e compositor Djavan, os versos parecem brincar ante a beleza do momento: “Amanhã, outro dia / Lua sai, ventania / Abraça uma nuvem que passa no ar/ Beija, brinca e deixa passar. / E no ar de outro dia / Meu olhar surgia nas pontas / De estrelas perdidas no mar / Pra chover de emoção, trovejar / Raio se libertou /Clareou muito mais / Se encantou pela cor lilás / Prata na luz do amor. / Céu azul / Eu quero ver o pôr do sol / Lindo como ele só / E gente pra ver e viajar / No seu mar de raio.”.
Apreciemos o pôr-do-sol de dias que nos são dados, absorvendo sua beleza e seus encantos. E quanto ao entardecer da vida, que nos traga o brilho lunar da maturidade, as estrelas das bênçãos incontáveis que colhemos pelos anos.

Ana Lúcia Finazzi

