Por Sílvia Ferrante
Cadeira nº 9 da Academia de Letras de São João da Boa Vista

Por ser casado com minha prima Teresinha Marcos Telles, eu conheci o dr. Benedito desde muito pequena. Nossa proximidade tornou-se maior quando fui trabalhar na Santa casa, onde ele também trabalhava.
Profissional super capacitado, atendia a todos com respeito e dedicação, foi sempre meu médico e médico de minha família.
Lembro do pavor que as novatas tinham dele, por causa daquela voz de trovão, que fazia todas acharem que ele estava bravo com alguma coisa. Era comum, quando se ouvia a voz dele vindo para algum setor, as meninas buscarem lugares para se esconderem dele. No Centro Cirúrgico foi um cirurgião respeitadíssimo, e tudo na sala onde ele operaria tinha que estar perfeito, senão vinha bronca. Sempre o paciente em primeiro lugar.
Uma vez, ele me ameaçou com um bisturi, explico: eu estava com Hérnia de Hiato e ele disse que se eu não emagrecesse, teria que ser operada. Com sua ajuda eliminei 30 quilos e me livrei da cirurgia. Ele ficou algum tempo sem me ver, e um dia, passando pela porta do Centro Cirúrgico, lá estava eu, magrela e feliz da vida. Ele parou, me olhou e disse, com a voz de trovão: – Silvia!?? O que aconteceu com você? Está muito magra! Parece doente terminal de Aids! Eu arregalei os olhos e respondi: – Lazarento! Foi você quem mandou eu perder peso! Ele saiu rindo enquanto dizia que deveria engordar um pouco. Aff!
Numa tarde chuvosa, eu estava de plantão na UTI, quando um paciente veio a óbito com suspeita de Ebola. Ele foi acionado, pois precisaria retirar pedaços de alguns órgãos para avaliação mais profunda em um dos Institutos de São Paulo. Ele me pediu para acompanhá-lo, eu fui. Preparei todo o material que ele pediu, me protegi com os EPIs necessários, peguei os dele e fomos para o necrotério. A tarde caía cada vez mais rápida e a chuva fina não dava trégua. Ele foi retirando as partes que precisava e eu colocava nos vidros com a solução necessária para conservação deles. De repente, ele acabou e começou a retirar luvas, máscaras óculos e avental. Eu olhei e disse: – Onde o senhor pensa que vai? Ele já rindo disse: – Vou embora, ué, eu já acabei a minha parte! Eu olhei para aquele defunto gigante, olhei para ele e disse: – Eu acompanhei o senhor até aqui, se me deixar sozinha, vou embora atrás do senhor e largo tudo aqui. Ele ria enquanto falava: – Temos que ter medo dos vivos, não dos mortos. Olhei para ele e respondi: – Eu tenho medo dos dois. Se sair daqui, saio também. Assim ele me esperou terminar de recolher tudo. E fomos para dentro do hospital debaixo da fina chuva que ainda insistia em cair.
Foi assim, entre risos e choros, muita correria e trabalho, que reparti com esse valioso profissional, um período maravilhoso da minha vida.
E, recentemente, a gente se despede, sabendo o quanto perdemos.
Descanse em Paz!




