A gente agradece pela vida

Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Neste espaço que me foi dado para “cronicar” (isto é, expor minhas crônicas), eu falo de tudo um pouco, à medida que o cotidiano me traz situações sugestivas. Mas já faz algum tempo que eu deixava gestar na mente uma ideia sobre aquela em cujo útero eu vivi, por 9 meses: dona Ditinha Estevam de Camargo. Antes de mais nada, eu lhe peço a bênção e digo: “Mãe, a gente agradece pela vida!”. Imbuída desta gratidão e, como a criança que sempre serei aos olhos dela, me ponho a imaginar minha amada mãe, vivendo nos dias atuais, em meio a tanta tecnologia. O que diria ao presenciar netos e bisnetos falando com máquinas? “Alexa, toque um Nocturne Op. 9 nº 12!”. E, de repente, o som de um piano inexistente no local soaria no ambiente, como que anulando todo o trabalho que ela fazia com seus dedos, com tantos anos de estudo! Com certeza, dona Ditinha não iria gostar muito. Porém, de certa forma, até acompanharia com seu raciocínio, pois foi lúcida até o fim. Um detalhe que me difere dela é que mamãe dirigia seu carro, inclusive para dar carona ao meu pai até o Posto de Saúde onde ele trabalhava. E também costurava nossas roupas. Eu sei que, à minha maneira, “costuro” palavras e “junto moldes” nas mentes dos tantos alunos que Deus me encaminha para cuidar. Não são alunos de piano, mas a profissão de professora me aproxima de mamãe, com orgulho e satisfação.

Aos que não a conheceram, apresento-a aqui. Descendente de espanhóis, dona Ditinha possuía oito irmãos, sendo sete homens e uma mulher: Tia Glória, sua amada e fiel irmã, companheira de todas as horas – um laço de irmandade singular, entre as únicas duas mulheres de uma família numerosa e profundamente unida. Por 36 anos, esteve casada com Antônio de Oliveira Camargo, meu admirado pai. Sobre a irmãzinha, cujo nome herdei – que, infelizmente, passou por esse mundo antes de eu ter tempo de conhecê-la – posso imaginar como foi dolorosa para meus pais a despedida prematura de alguém tão notável e pianista prodígio. Mesmo assim, mamãe seguiu adiante, tendo a fé como farol e o amor como bússola, para nunca se lastimar frente aos obstáculos da vida. Tanto é verdade que meu irmão, Antonio Claret, e eu viemos a esse mundo. Sim, pois meus pais não pretendiam ter mais filhos após a partida de Marly Evangeline. Modéstia à parte, sei que contribuímos para tornar a vida deles mais leve e feliz. O tempo se encarregou de fazer valer a pena cada peça desse quebra-cabeças chamado sistema familiar. Forte, mamãe continuou morando ali na Floriano Peixoto (apesar da mudança temporária, após perder a primogênita). E – o que me deixa muito feliz e grata – teve tempo para ver, curtir um pouco e deixar memórias afetivas em seus 4 netos. Em paralelo, preparou muitos sanjoanenses para o conservatório Carlos Gomes. Cláudio Richerme de Oliveira Azevedo, um dos alunos mais brilhantes de mamãe, que o diga! Conviveu com dona Ditinha desde a infância e, além do parentesco, tornou-se um grande amigo da família! Também Márcio Pereira, músico talentoso, foi um de seus alunos notáveis. Cada um, a seu modo, carrega o legado que ela semeou com tanto zelo. Falando ainda em conservatório, mamãe até embarcou junto com uma das alunas, a Mariazinha Marum, a fim de obter o diploma que ainda não tinha. Que importância tem um diploma, afinal, para quem deixou tantas sementes que o vento da sabedoria disseminou por este mundão? Saudade, Mãe! Sei que você está por perto. Seus descendentes a reverenciam e a honram com orgulho! Gratidão, dona Ditinha Camargo!

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