Retorno Rural

No país do Agro muito tempo já se passou desde o êxodo rural. Passamos a ser hoje a estranha nação do Agro com sua população majoritariamente urbana! Cerca de 87% (segundo o censo do IBGE de 2022) estão nas cidades. Esse fenômeno de levar o título de “celeiro do mundo”, com recordes e primeiras posições de algumas comodities alimentar nos remete a duas questões: como podemos ser potência no Agro se o homem não está no campo? Outra questão é: como o país do Agro ainda tem fome em alguns locais?

Nas décadas passadas, o campo era rudimentar e o serviço, braçal. Numerosas famílias viviam do sustento agropecuário com predominância da agricultura familiar. As famílias cultivavam costumes de imigrantes e nativos. As crianças trabalhavam, aprendiam hierarquia e a divisão de tarefas, conheciam a terra!

Hoje o Agro se voltou para a Bolsa de Valores! Não é mais um boi: é a proteína animal; não é mais o galinheiro: é o galpão climatizado; não é mais o arroz, feijão, inhame e a carne conservada na lata de banha! É a soja, a cana, algodão e o milho. Não são mais os sítios vizinhos das famílias, parentes e amigos…. São os grandes tabuleiros de plantação e um “mar de gado”.

Há um retorno do homem ao campo acontecendo. Muitos dos novos atores do Agro têm um viés apenas empresarial e isso gera um contraponto preservacionista. Uns são tudo pela produção; não se importam com nada além do lucro; outros criticam tudo e incriminam o Agro. Quando na verdade o meio rural é tudo! É o meio ambiente em si, onde tem a biodiversidade, a produção e ambas deveriam coexistir harmoniosamente.

Deve haver, sempre, um bom senso nisso! O ambientalista não existe sem o produtor rural e o produtor rural oferece subsídio ao ambientalismo graças ao nosso código florestal. Com o retorno do homem mais moderno ao campo, o desafio é o urbanóide conversar com o produtor rural e ambos se entenderem.

Ouve-se muito hoje que a carne é cara, mas dificilmente alguém foi ver como é essa produção; desde o abate do gado até o bife na mesa do consumidor.

Há muito trabalho para se fazer da vida uma comida fácil no prato!

A indústria animal é diferente do alimento de origem vegetal. Existe a morte de um ser vivo que possui diversos componentes fisiológicos que o remetem à dor, como a nossa e diferente da dor de uma planta ceifada. O fluxograma de tornar os animais em comida dentro da planta de um abatedouro é complexo e trabalhoso! Não há como ser barato a vida de um animal. Por outro lado, há de se pensar que se pudéssemos ser mais evoluídos, produziríamos carne como fonte de alimento para o povo brasileiro e não como estratégia de exportação. O mercado de exportação de proteína animal tem crescido na mesma medida que o consumo interno vem diminuído e essa não me parece uma equação justa! Podemos exportar quando aqui estiver bem abastecido, não?!

Para responder às questões de reflexão do início e contextualizar. Sim! O meio rural está tecnológico e por isso não precisa de tanta gente; as máquinas fazem o serviço de muitos homens e, ainda temos fome, pois a indústria se volta muito a potencializar o PIB e vender grandes safras e toneladas de proteínas para fora gerando divisas e riqueza conglomerada.

A reforma agrária não está somente na divisão de terras e sim na estratégia de sermos menos gananciosos e amarmos nosso país; alimentarmos o nosso povo e pararmos de criticar quem produz alimento. Às vezes nos sacrificamos o ano inteiro para comprar um celular que é produzido em escala com um super valor agregado e ninguém reclama. Os valores estão realmente trocados! Não?

 

Plínio Aiub

é médico veterinário especializado em animais silvestres

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