Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Para Olavo Bilac, ela era a “última flor do Lácio, inculta e bela”; para Oswald de Andrade, um tema que rendia jocosos ‘Vícios na fala’ – como no poema que diz “Para dizerem milho, dizem mio / Para melhor, mió […] Para telhado, dizem teiado / E vão fazendo telhados”. Mas, para muitos falantes, a Língua Portuguesa é um mistério, repleto de regras e minuciosas exceções, que fazem dela uma verdadeira engenharia.
Em recente novela da TV Globo, por exemplo, uma personagem tratava seu namorado por ‘princeso’. Não tardou para que eu visse, em uma rede social, uma pessoa utilizar o mesmo tratamento, em legenda da foto de seu neto! Sem contar as infinitas vezes em que ouvimos frases como “Bateu o carro e deu perca total”, “Fulano recebeu aviso breve”, “A pessoa pediu para mim estar trazendo isso” ou “E se a gente pôr essa caixa ali?’ – situações em que o emissor do discurso nem se dá conta dos erros gramaticais! Logicamente que falamos uma linguagem coloquial, sem lugar para correções que podem soar como pedantismo. Porém, é necessário observar que, até a mídia – com seus príncipes e princesos – concorre para disseminar um português que precisa ser ‘salvo’, como se estivesse condenado pelas modernidades.
Voltando-se para a história, a verdade é que a Língua Portuguesa do Brasil atual nada tem a ver com aquela originária do idioma falado na região da Galiza e Portugal, que, até o século XIV, não era nem oficialmente chamado de ‘Português’. Ao focar nossas atenções para o Brasil – país tão miscigenado em todos os aspectos – nota-se que a Língua Portuguesa é resultado do português clássico trazido pelos colonizadores lusitanos, somado às várias línguas indígenas dos que aqui viviam, bem como somado às africanas, dos escravizados traficados ao Brasil quando ainda éramos colônia de Portugal.
É importante lembrar que, para chegar ao português falado e escrito atualmente em nosso país, houve diversas mudanças linguísticas, inúmeras reformas ortográficas – com acréscimos e/ou supressões de ordem morfológica, sintática e fonológica – e nossa língua ainda segue em processo de construção de sua identidade, conforme informações da Universidade Mackenzie. O nosso português ‘brasileiro’ – como denominam alguns linguistas – é um caso à parte, pela própria extensão territorial, que gera regionalismos e sotaques bastante peculiares em cada canto deste imenso Brasil.
Certo ou errado, cada traço desta língua apaixonante – descrita por Bilac como ‘inculta e bela’ – tece a colcha de retalhos da nossa nação. Tal como Caetano Veloso, que celebra a Língua Portuguesa em toda a sua complexidade e beleza na música “Língua“: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões […] Gosto do Pessoa na pessoa / da rosa no Rosa /
E sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor está para a amizade / E quem há de negar que esta lhe é superior?”.
Transmiti-la aos meus queridos alunos é reiterar a paixão pela minha língua-mãe. E nesta faina, mais aprendo do que ensino, pois a Língua Portuguesa está em constante evolução.




