Todo dia era dia dos Povos Indígenas

Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

“Curumim, chama Cunhatã / Que eu vou contar…

Antes que o homem aqui chegasse / As Terras Brasileiras /

Eram habitadas e amadas / Por mais de três milhões de índios /

Proprietários felizes da Terra Brasilis / Pois todo dia era dia de índio / Mas agora eles só têm o dia 19 de abril.”

No começo dos anos 1980, essa música de Jorge Benjor – cantada por Baby do Brasil – estava nas paradas de sucesso e talvez lembrasse a alguns sobre a parcela da população que faz parte da história do nosso País.

Quando da minha última crônica publicada no O MUNICÍPIO, o confrade Fernando Dezena comentou comigo que “nosso Brasil mestiço é formado com a violação das mulheres indígenas e negras. Não foram os homens negros nem os indígenas que violaram espanholas, portuguesas e holandesas. O Brasil é materno.” Pegando a música mencionada como gancho, observo, como sua letra revela de modo subliminar, como os indígenas mantinham relações com a natureza, bem como o processo em que se deu a perda de espaço para os colonizadores portugueses após a chegada destes, em 1500. Mesmo atualmente, os povos indígenas são notícia, no tocante à luta em defesa e demarcação dos seus territórios e na preservação da sua cultura. Como professora e até como uma aluna que se recorda como era comemorado o “Dia dos Povos Indígenas”, eu faço um alerta de que a escola é fundamental para o fortalecimento dessas lutas.

Certa vez, o professor José Valdir Jesus de Santana, do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, pesquisador do assunto, desenvolveu a pesquisa “A letra é a mesma, mas a cultura é diferente: a escola dos Tupinambá de Olivença, Bahia”, que se tornou uma tese de doutorado. Com afirmação acima, Santana conclui que a celebração do 19 de abril tem como propósito trazer para escolas e universidades a preservação da memória e reflexão crítica sobre o passado da relação de dominação e conquista das civilizações europeias no continente americano. Vale lembrar que a Lei 14.402, de 2022, alterou o nome da celebração para Dia dos Povos Indígenas, a fim de salientar a diversidade das culturas do povo originário do território brasileiro.

Detalhes à parte, o povo indígena está presente no nosso cotidiano, de maneiras que nem sempre nos damos conta! Eles estão na tapioca, nos alimentos à base de mandioca; em instrumentos musicais como maracá, flauta ou reco-reco; em nomes de estradas; estampas de tecidos, em acessórios e bijuterias.

Acrescento as inúmeras lendas do folclore brasileiro, passadas de geração em geração. Dentre elas, eu destaco a do Sete Estrêlo, de origem dos índios Coxinauás. Conta a história de sete indiozinhos cuja mãe não lhes dava a mínima atenção – passava seus dias deitada em uma rede ou fazendo suas próprias vontades. Até que um dia uma das crianças reuniu os irmãos e sugeriu que todas fossem para o céu, pois era um lugar maravilhoso, onde teriam tudo o que é bom. Uma brisa gentil e amiga passou por ali e, em um salto, os indiozinhos puderam voar. Quando a mãe percebeu e começou a chamá-los, desesperada, era tarde demais. Hoje, em certas regiões do Brasil, é possível avistar a constelação do Sete Estrêlo, sobretudo em noites claras – são as sete crianças indígenas que nos lembram que, antes de Pedro Álvares Cabral chegar por aqui com suas caravelas, o Brasil era delas.

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