Por Mariana Mendes De Luca | @marianamdeluca
Eu me lembro quando era pequena e aqui na nossa cidade ainda existiam poucos mercados e boa parte dos seus corredores, na época em que a Páscoa se aproximava, eram tomados por aqueles ovos de chocolates pendurados, coloridos e que chamavam a atenção de qualquer criança.
Hoje em dia, apesar da chocólatra que sou, confesso que esses corredores são menos atrativos se comparados ao corredor dos vinhos, pois de fato, eu troquei “o ovo de Páscoa” pelo “vinho da Páscoa”.
Isso se torna atraente a partir do momento em que entendemos o quanto um vinho realça o sabor das tradicionais comidas pascais e rapidamente nos convencemos de que o vinho é sim, o melhor acompanhamento para o seu domingo de Páscoa.
Mas então, qual vinho escolher?
Para uma boa harmonização, mais importante do que o vinho, é o prato principal. E para a Páscoa, o prato mais tradicional na mesa dos brasileiros, é o bacalhau. A herança que os portugueses nos deixaram na época da colonização, está presente em nossa mesa, por tradição religiosa, na Páscoa e no Natal.
É um peixe seco, com textura e com bastante sal, e entender a estrutura da comida é tão importante quanto entender o vinho.
O grande desafio do bacalhau é que ele pode ser preparado de diversas formas e por isso, devemos entender quais ingredientes irão compor o prato, já que a depender de quais forem, podem roubar a cena junto ao vinho.
E aqui está um dos maiores segredos de uma harmonização bem-sucedida, o vinho nunca deve roubar a cena, ele deve sempre complementar os sabores do que se prova, para que assim, juntos, vinho e comida, tornem a experiência muito mais agradável.
Tendo em vista então que a margem da harmonização do bacalhau contempla vários vinhos, quando falarmos em um bolinho de bacalhau frito, podemos pensar em uma dupla com a escolha da terra de quem nos apresentou o bacalhau, o vinho verde.
O frescor do vinho produzido em Portugal, junto a sua acidez e seus aromas cítricos, complementam a experiência do bacalhau em forma de bolinho frito. A acidez do vinho libera o nosso paladar da gordura da fritura enquanto o sabor cítrico do vinho caminha junto ao sabor forte do peixe de água fria. Essa estrutura do vinho é perfeita com o sabor cremoso da mistura do bacalhau com a batata e seu complemento de temperos verdes.
Já para a untuosidade da tradicional bacalhoada, com seus ingredientes como o azeite, os pimentões, o tomate, a batata, as azeitonas pretas e os temperos, a dupla perfeita é com um vinho branco, de corpo médio e acidez equilibrada, para que em nenhum momento, ele nos faça esquecer do bacalhau.
E se para um prato banhado a azeite o vinho é branco, para uma receita mais seca, um vinho tinto de corpo leve pode dar força ao prato, já que os taninos presentes no tinto se equilibram com a força do sal do bacalhau.
Agora se o seu perfil é uma receita mais pesada, com natas e creme de leite, pode apostar em um vinho mais encorpado, mas não muito alcoólico, para que o teor do álcool não roube de forma alguma a cremosidade do prato.
Apesar de desafiadora, a arte de harmonizar esse prato tão versátil a um vinho, nunca será clichê, fazendo jus ao que o vinho nos propõe, boas e surpreendentes experiências.
Feliz Páscoa e até A Próxima Taça!

