Gosto de ser mineira, gosto de ser paulista. Mineira de Itajubá. Paulista de Campinas. E cronista de São João da Boa Vista. Vejo a fugacidade da vida. Conhecer sentimentos vinculados às raízes de modo profundo relativos à cidade onde nasceram Fernando Pessoa, Dante Alighieri, Baudelaire, Jorge Luís Borges, Drummond. Isso me despertou muitas lembranças de infância e juventude e levou-me a reflexões sobre meus sentimentos a duas cidades: aquela em que sempre vivi e aquela em que nasci.
Meus pais, já tendo uma filha pequenina (minha irmã Zezé), decidiram sair de Campinas. Acabaram chegando à cidade de Itajubá, Minas Gerais, onde ficaram pouco tempo, retornando a Campinas quando eu estava bebê de 4 meses. Nasci em Itajubá, e recebi, com alegria, o título de cidadã campineira.
Desenvolvi raízes profundas e viscerais com Campinas. Amigos, estudos, passeios, trabalhos com meus pais comerciantes. Caminho diariamente pela cidade, passando por vários bairros, lugares, descobrindo amiúde novidades desconhecidas, coisas novas, detalhes nas construções, pessoas de todo tipo. Doloroso, muito doloroso ver seres humanos enrolados em panos, jornais e restos de lixo, dormindo nos cantos de lojas, bancos, muitas vezes nas calçadas. Ações públicas atuais apontam para a superação disso. Vem-me à lembrança Baudelaire, recolhendo-se à solidão e à dor, em tom melancólico.
Caminhadas que me fazem reviver palavras incríveis de Vincent van Gogh. Escrevia ao irmão Theo, falando sobre criatividade. Ali há uma pérola preciosa, raríssima de ouvir de um grande artista como ele. Ei-la: “A pintura independe de um domínio inato ou de estalos de gênio”; o que contava era o empenho: “O talento é uma longa paciência – e a originalidade, um esforço de vontade e observação intensa”. Afirmação de Van Gogh!
Toda reflexão sobre nós, seres humanos, sempre me faz pensar na importância número um da educação em nossa vida, especialmente hoje com o desenvolvimento tão marcante da tecnologia. Educação com o desafio de aproveitar os benefícios da tecnologia para levar a pensar, dialogar, discutir e atuar em conjunto. Aprender envolve prazer. A recuperação do prazer de estudar, de descobrir, de aprender. Criar condições governamentais para que o magistério seja atrativo, com propostas que dignifiquem sua missão, vital para o desenvolvimento do país.
Grandes preocupações estão presentes. Raymond Kurzweil, por exemplo, é um otimista. Diz ele: O futuro da humanidade não está dado, assim como o futuro da IA depende de como ela for desenvolvida e usada”. Ricardo Cueva luta para que haja regulação, pois a IA já causa danos.
O cientista político alemão-americano Yascha Mounk considera que uma parte da política progressista ou de esquerda atual passou a privilegiar a identidade sobre todas as outras coisas na hora de desenvolver políticas públicas e se posicionar no debate político. Para ele, parte considerável da esquerda passou a desprezar — ou relegar a segundo plano — ideias e “valores universais e regras neutras, como liberdade de expressão e igualdade de oportunidades”.
O permanente papel transformador que as criações desempenham na história humana mostra que as pessoas que determinaram mudanças radicais são as que assimilaram mais profundamente a cultura existente, chegando aos elementos revolucionários inclusos nas obras.
Vivemos momentos novos, inesperados, com múltiplos debates e pontos de vista. O pensador alemão-americano Mounk acaba de lançar, nos Estados Unidos, o livro “Identity Trap: a story of ideas and power in our time” (ou, em tradução livre, “A armadilha identitária: uma história de ideias e poder em nosso tempo”), ainda sem previsão de publicação no Brasil. Aguardemos.

Maria Eugênia L.M. Castanho, mestre e doutora em educação pela UNICAMP, professora universitária, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, SP.

