Há alguns dias ouvi de um amigo que os portugueses não gostam dos brasileiros e que as barreiras que existem entre nós são intransponíveis. Fiquei surpreso, mas respondi respeitosamente ao meu interlocutor que não concordava com essa opinião. Afinal, apesar da existência de ínfimas minorias de brasileiros e portugueses que cultivam a erva daninha da xenofobia no solo infértil da intolerância, a grande e verdadeira magia das relações luso-brasileiras consiste justamente na harmonia que une dois mundos tão distintos e distantes em nações tão semelhantes e próximas uma da outra.
Tive o privilégio de estudar no Centro de Investigação em Educação e Psicologia (CIEP) na Universidade de Évora no ano de 2022. Devo asseverar que a cidade de Évora, capital do Distrito que possui o mesmo nome, com sua arquitetura histórica e atmosfera única, serviu como musa inspiradora para a maior parte dos poemas despretensiosos que escrevi no livro “Além do Tejo: a poesia habita no coração de Évora” o qual será publicado brevemente. Trata-se de uma obra que apresenta a síntese das minhas percepções, vivências, aprendizados, reflexões e sentimentos sobre Portugal.
Entendo humildemente que o mundo enfrenta grandes desafios neste momento, razão pela qual os vínculos de amizade e cooperação entre Brasil e Portugal devem ser fortalecidos, compreendidos e valorizados por todos nós. Nesse sentido, é imperativo ressaltar tudo o que nos aproxima de Portugal: riqueza cultural, lusofonia, literatura, arte, economia, turismo, educação, amizade, história e diálogo político-diplomático.
A concepção errônea que muitos brasileiros têm sobre Portugal pode ser atribuída a uma série de fatores que incluem a desinformação, o revanchismo quanto ao período colonial e a disseminação de discursos de ódio. Uma das ideias equivocadas é a de que Portugal é um país homogêneo, onde todos têm os mesmos costumes. Na realidade, a nação portuguesa possui uma rica diversidade regional, com tradições e modos de vida que variam de norte a sul. Logo, a história de Portugal é marcada pela influência de várias culturas. Isso enriquece sua própria identidade e a aproxima ainda mais do Brasil.
Infelizmente, em Portugal também existe uma pequena parcela da sociedade que parece não conhecer a grandeza do Brasil e dos vínculos inquebráveis que unem os nossos povos. Essas minorias, movidas por discursos impregnados de intolerância e raiva, assumem posturas reprováveis de xenofobia, racismo, agressividade e mediocridade. Não obstante, é preciso reconhecer que a história também carrega suas cicatrizes, ou seja, o passado colonial ainda ecoa vários constrangimentos e desacertos. Todavia, ambos os lados devem buscar um diálogo aberto e respeitoso voltado para a aceitação das nossas diferenças, discordâncias, críticas, ponderações, lembranças e perspectivas futuras.
Apesar da existência de contrapontos, a magia das relações luso-brasileiras consegue promover o permanente encontro do passado com a contemporaneidade, pois transforma o conjunto das nossas similitudes e diferenças em uma grande celebração. Outrossim, a literatura que nos une possui uma magia inigualável, pois escritores magníficos como Machado de Assis e Fernando Pessoa, cada qual no seu devido contexto, exploraram as nuances da alma humana, refletindo as complexidades das nossas culturas. E nesse quadro de encantos, a prosa e a poesia se entrelaçam, criando um diálogo que transcende fronteiras e nos convida a refletir sobre a nossa identidade comum.
Sim, a cultura luso-brasileira movimenta-se como uma dança constante entre as instâncias do tempo e cada passo é uma homenagem à diversidade e à riqueza de nossas raízes. Ao celebrarmos essa magia, não apenas preservamos nossa história, mas também a renovamos com a pujança e a beleza de uma peculiar sinfonia cultural. Portanto, a beleza que nos aproxima reside na mistura das nossas culturas que, além das tradições, crenças, linguagens, festas e manifestações artísticas, possui a capacidade de nos unir em torno de algo maior que cultivamos: o respeito mútuo e a amizade que une nossos povos.
Finalmente, compartilho com os leitores do jornal O MUNICIPIO um poema de minha humilde autoria, o qual tenta perscrutar um pouco do jeito de ser português:
Idiossincrasia lusitana
Hoje percebi
Uma esperança
Cintilante
Nos teus olhos.
Um olhar nunca
Tinha sido
Tão efêmero
Na eternidade
Idiossincrática
Do jeito de ser
Lusitano:
Único,
Passional,
Emotivo,
Racional,
Introspectivo,
Receptivo…
Simplesmente humano!
Antonio Artequilino da Silva Neto é historiador, doutor em Linguística, mestre em Educação, escritor e professo

