Subsistência e Renovação

No lusco fusco, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) sai da sua toca, embaixo de um cupinzeiro inativo dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra (6a maior porção do Bioma Cerrado), deixando para trás, aninhados, seus dois filhotes e a mãe loba que os amamentavam ao som do inhambu-chororó (Crypturellus parvirostris) em busca de alimentos.

Era julho, o lobo, arrepiado de frio e magro por dividir sua alimentação, hábito que só tem durante a fase de cuidados paternal e, astuto como sempre, já sabia onde encontrar comida para a família. Por ter dormido bem de dia enquanto o sol aquecia seu corpo, guardou energia para ir atrás da subsistência da família. No caminho, passou por um tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) sem se importar. Encontrou e comeu alguns frutos da lobeira (Solanum lycocarpum), arbusto que leva seu nome por fazer parte da sua dieta e que o manteve alerta até o objetivo de caçar uma presa que pudesse sustentar por mais tempo a mãe e seus filhotes.

Acerca de dois quilômetros da sua toca, estava um tapiti (Sylvilagus brasiliensis) procurando por frutos e talos abaixo do capim barba-de-bode (Andropogon virginicus) que o cobria na paisagem rupestre. O tapiti aparentava ser um macho mais velho. O lobo com a sua pisada leve, escuta com suas enormes orelhas o som do roedor e, imediatamente, fica imóvel, atento e altivo para, num salto “certeiro”, com um mergulho peculiar da espécie (semelhante às raposas vermelha fazem na neve), abocanhar sua presa.

Depois de dois mergulhos por entre o capim barba-de-bode, seguidos de pausa estratégica, o experiente lobo abocanhou o velho tapiti. Após a caçada e um breve descanso para ajeitar a alimentação de sua família, o lobo-guará, com sua pelagem vermelho canela e com a sua crina e longas patas pretas trota, elegantemente, de volta pra sua toca onde estava sua companheira de mais de quatro anos num comportamento monogâmico que essa espécie preserva. Durante seu trajeto, aproveita para defecar fezes contendo sementes da lobeira em melhores condições de germinação após ter passado pelo trato digestório, configurando a zoocoria, dispersão de sementes por animais e importante fenômeno para regeneração do seu habitat. O Cerrado representa cerca de 22% do território nacional e sofre grande pressão por inúmeros fatores, como fogo e expansão da fronteira agrícola, tendo apenas 8,21% do seu território protegido legalmente através das Unidades de Conservação como é o Parque Nacional da Serra da Canastra, importante local de preservação dessa espécie.

Logo após a passagem do lobo pelo local, um jovem tapiti macho vigoroso se prepara para mais uma batalha pelas fêmeas férteis da região. Ao encontrar uma linda jovem sozinha, ele se aproxima e não enxerga nenhum outro macho defendendo habitualmente seu território, provavelmente o que foi o jantar da família do lobo. Rapidamente, após corridas e saltos alucinantes em par, a fêmea se entrosa com o macho e permite a cópula para perpetuar sua família. A ordem dos roedores representam 40% de todos os mamíferos do planeta, com rápida procriação e manutenção da teia da vida, mantem o equilíbrio entre presa e predador.

A vida na natureza é som e movimento de Deus, é a maravilha da subsistência e da renovação, é o ciclo sem interesses escusos ou julgamentos que lacram comportamentos intrínsecos das espécies. Na natureza não existe o patinho feio da Disney, amargurado pelo “bullying” que a humanidade construiu e acabou com nossa relação natural com o mundo. É apenas vida que segue seu curso natural. Espécies citadas no texto fazem um trabalho lindo para natureza e seu bioma, mais do que boa parte da humanidade faz pelo seu país.

Plínio Aiub é médico veterinário especializado em animais silvestres

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here