Visita de Dom Cyrillo Mogabgab a São João da Boa Vista

Em 1904, São João da Boa Vista recebeu a visita de Dom Cyrillo Mogabgab, um importante líder religioso, naquele momento bispo de Zahlé e Furzul, no Líbano, sendo responsável por uma diocese de mais de quarenta aldeias e com cerca de quarenta e cinco mil pessoas, contando com a colaboração de oitenta sacerdotes.

Cyrillo Mogabgab nasceu em Ain-Zehalta, no Líbano, no dia 29 de outubro de 1855, tendo estudado no Seminário Nacional de Ain-Traz e no Colégio Pontifício Grego, em Roma, quando Pio IX (1792-1878) ocupava a Cátedra de São Pedro. Tornou-se sacerdote em 1883, realizando estudos superiores em Lyon, na França, ocupando em seguida a reitoria do Seminário de Ain-Traz. No ano de 1893, foi nomeado secretário do Patriarca Pedro IV, Barakat Géraigiry (1841-1902), alcançando neste posto a eleição para bispo da Diocese de Zahlé.

Dom Cyrillo Mogabgab (Reprodução/Via google)

Nos primeiros anos do século XX, Cyrillo Mogabgab empreendeu uma longa viagem pela Europa e pela América, incluindo o Brasil, com o intuito de angariar donativos para a construção de igrejas e o desenvolvimento do culto católico, iniciando sua visita pelo Rio de Janeiro, onde foi recebido, em meados de 1904, entre outros, pelos religiosos do Colégio dos Salesianos de Niterói, celebrando também uma missa solene na Igreja da Candelária, na então capital do País, tendo se hospedado no Mosteiro de São Bento.

Deixando o Rio de Janeiro, partiu para o território paulista, onde, no dia 8 de setembro de 1904, foi realizada a cerimônia de coroação de Nossa Senhora Aparecida, data a partir da qual a imagem encontrada no rio Paraíba passou a usar a coroa doada pela princesa Isabel (1846-1921), em 1884, bem como o manto azul-marinho doado pelo bispo Dom José de Camargo Barros (1858-1906), contando tal ato com a presença de grande número de religiosos, entre os quais, Dom Cyrillo Mogabgab, além do núncio apostólico Dom Giulio Tonti (1844-1918), e de diversos bispos do Brasil.

No dia 6 de outubro de 1904, em carro reservado ligado ao trem noturno, Dom Cyrillo Mogabgabdesembarcou na Estação do Norte, na cidade de São Paulo, tendo sido acompanhado, desde Mogi das Cruzes, de uma comissão que foi ao seu encontro àquela localidade. Na estação ferroviária, além de grande massa popular, composta na sua maioria de membros da colônia síria, aguardavam-no diversos religiosos, como Dom Miguel Kruse, prior do Mosteiro de São Bento, Dom João Nery, bispo de Pouso Alegre, Dom Ponce Leão, bispo do Rio Grande do Sul, entre outros, tendo tocado na ocasião a banda de música da Força Pública, saudando-o diversos oradores. Durante sua permanência na capital paulista, hospedou-se no Mosteiro de São Bento, o qual, em sua homenagem, teve sua fachada iluminada por trezentas lâmpadas elétricas, tendo sido recebido pelo bispo Dom José Camargo Barros, por fieis brasileiros e por membros da colônia melquita, adquirindo durante sua passagem pela capital paulista um terreno para a construção da igreja do rito. Também realizou uma conferência no salão nobre do Ginásio de São Bento, versando sobre “A Igreja Oriental, seus diversos ritos e suas relações com Roma”, que contou com a presença de muitos de seus conterrâneos e religiosos.

Assim que a numerosa colônia sírio-libanesa de São João da Boa Vista tomou conhecimento da presença do ilustre visitante em terras paulistas, tratou de convidá-lo para conhecer a cidade que contava com muitos de seus conterrâneos, sendo o convite prontamente aceito pelo religioso.

Formou-se, então, uma Comissão responsável pela recepção de Dom Cyrillo Mogabgab, composta por Dibi Balajia, Gabriel Udm e Rachid Anid, os quais muito se empenharam para que o dia da visita fosse histórica, não só para a colônia síria residente em São João da Boa Vista e região, como também para a própria cidade.

O religioso desembarcou na Estação Ferroviária, no dia 4 de dezembro de 1904, um domingo, dirigindo-se para a residência de dona Anna Gabriela da Silva Oliveira (atual Museu Histórico), na esquina do então Jardim Público (hoje praça Governador Armando Salles) com a então rua Quintino Bocaiuva (hoje rua Benedito Araújo), onde se hospedou.

Um representante do jornal Revista de Poços, publicado em Poços de Caldas, estava na cidade e assim descreveu aquele dia festivo: “Como era de se esperar de um povo culto, como o é, sem lisonja, o de São João da Boa Vista, o ilustre prelado foi ali fidalgamente recebido, não só pelo escol da sociedade sanjoanense como também pelos seus patrícios sírios, cuja colônia é ali geralmente estimada pela correção de seus atos”.

Diversos moradores da cidade e região assistiram à imponente manifestação que ao ilustre religioso foi feita por parte da escola pública do sexo feminino, dirigida pela professora Júlia de Almeida, saindo o préstito, às 18h, da Igreja Matriz de São João Batista, acompanhado pelo popular vigário da Paróquia, padre Thierry Albuquerque, desfilando pela praça do Jardim Público até o palacete Dona Anna de Oliveira, sendo ali recebido festivamente.

Muitas meninas recitaram com muita graça e propriedade alguns versos e discursos em honra ao visitante, a quem ofertaram ramalhetes de flores naturais.

Ainda de acordo com o semanário mineiro: “Dom Cyrillo, agradavelmente comovido por aquela significativa manifestação de apreço e afeto, proferiu em francês um substancioso discurso, cheio de ensinamentos, concitando as meninas para que estudassem muito, a fim de que, com o espírito iluminado pela instrução baseada na caridade cristã, pudessem cumprir na terra a alta missão confiada à mulher pelo Deus Todo Poderoso, pelo Deus de eterna bondade. Que a responsabilidade da mulher perante esse Poder Supremo era a mais séria e ao mesmo tempo a mais nobre à face da humanidade, em seu tríplice papel de filha, de esposa e de mãe de família. Discorreu ainda larga e eloquentemente sobre essa interessante tese, concluindo por lançar a bênção a todos os circunstantes”.

Casa de Dona Ana Oliveira, onde esteve o Dom Cyrill o quando visitou São João da Boa Vista (Arquivo/Antonio Carlos Lorette)

O religioso permaneceu na residência da viúva do coronel Joaquim José de Oliveira o tempo suficiente para receber muitos cumprimentos e conversar com autoridades e diversos membros da colônia síria, naquele momento já deveras integrada à cultura local, continuando depois sua peregrinação por outras cidades do Brasil.

O jornal Cidade de São João, no 11 de dezembro de 1904, publicou a respeito da histórica visita: “A Comissão de recepção de Sua Excelência o Sr. Dom Cyrillo Mogabgab, que esteve ultimamente nesta cidade em visita pastoral, agradece, profundamente penhorada à excelentíssima família do finado cidadão Sr. Joaquim José de Oliveira a gentileza do obséquio que lhe prestou cedendo graciosamente a sua casa para aí ser hospedado Sua Excelência o Sr. Bispo, e bem assim à população desta cidade o generoso concurso que lhe dispensou com o acolhimento fidalgo que fez ao ilustre prelado sírio”.

Dom Cyrillo Mogabgabtambém visitou as cidades paulistas de Itu, Santos, Cravinhos, entre outras, bem como os Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, visita esta última noticiada pela imprensa local: “A Federação recebeu hoje a gentilíssima visita do ilustre prelado sírio Dom Cyrillo Mogabgab, da Diocese de Zahle, na Ásia, acompanhado do Reverendíssimo Costabile, vigário da paróquia do Rosário, e do negociante sírio Joaquim Moisés, desta praça. Sua Excelência Reverendíssima vem ao nosso Estado, a exemplo do que já tem feito em outros países do mundo, colher donativos em favor das obras humanitárias e religiosas da sua diocese, contando para isso com o auxílio, não só da colônia síria, que é numerosa no Rio Grande, como dos católicos em geral. Trata-se de um prelado exemplaríssimo pelas suas virtudes e elevadas qualidades morais, que goza de grande estima e conceito junto ao Sumo Pontífice Romano, e ao mesmo tempo dedicado à causa da instrução popular na sua Pátria, sendo, pois, de supor que a sua missão aqui tenha cabal sucesso. Agradecemos a fineza do Reverendíssimo Bispo Sírio, desejando-lhe felicidades”.

Parcial de São João da Boa Vista no início do século XX (Arquivo/Acervo do autor)

Esteve ainda o religioso na visinha Argentina, onde visitou a colônia síria de diversas localidades.

Durante mais de 20 anos, Cyrillo Mogabgab trabalhou pelo bem espiritual e material de sua diocese, sendo um entusiasta propugnador da independência do Líbano, sendo eleito, em 1925, Patriarca de Antioquia, com o nome de Cyrillo IX, na sucessão de Dimitrios I Cadi, realizando neste posto diversas viagens à Europa, comparecendo em Roma para felicitar os Papas Pio XI e Pio XII, quando de suas eleições, bem como duas vezes na França, tornando-se credor dos sumos pontífices e de outras autoridades religiosas com quem conviveu.

Em meio século de episcopado, construiu grande número de igrejas e escolas, tendo a Comunidade Melquita muito progredido, inclusive no Brasil, onde foi inicialmente construída uma igreja no Rio de Janeiro, então capital do País, sendo digno de nota a igreja melquita de Alexandria dedicada a São Pedro, em homenagem a Dom Pedro II, na qual todos os dias, durante vários anos, foi rezada uma missa grega em intenção ao segundo imperador brasileiro.

Dom Cyrillo Mogabgab faleceu em Alexandria, no Egito, no dia 8 de setembro de 1947, sendo reverenciado em diversos países, como Patriarca de Antioquia, de Alexandria, de Jerusalém e de todo o Oriente.

Dedico esse texto a todos os descendentes de sírio-libaneses, muitos dos quais amigos fraternos, que tanto colaboraram e ainda colaboram para o progresso de São João da Boa Vista, de São Paulo e do Brasil.

Rodrigo Rossi Falconi é médico e membro da Academia Poçoscaldense de Letras

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