Carnaval: lembranças de uma época de encanto

Marly Camargo

Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Sempre que o Carnaval se aproxima, recordações de um tempo feliz me invadem a mente! Lembro-me que, na minha juventude, o Carnaval tinha um brilho especial, uma magia que contagiava a todos. Tudo começava semanas antes, com as famílias envolvidas nos preparativos, as crianças e adolescentes ansiosos para chegar ao salão e curtir bastante, ao som das marchinhas. A famosa “Mamãe, eu quero” tornava-se quase literal, pois a garotada pedia ‘mamãe, eu quero… uma fantasia de princesa, marinheiro, pirata’. Tal pedido as mães acatavam, para a alegria de todos! Os Carnavais de rua, então, eram um show à parte e uma euforia saudável coloria as vias públicas de São João, espalhando um clima de pura animação, sem as bebedeiras e a violência de hoje em dia. Parecia que o principal intuito era o de brincar o Carnaval, jogar confetes e serpentinas, cantar marchinhas e curtir os amigos. Costumávamos reunir nas casas das amigas para decidirmos o tema do bloco e idealizarmos as fantasias. A ansiedade tomava conta da gente!  Minha saudosa mãe, Ditinha Camargo, não possuía apenas a habilidade no piano, mas também na máquina de costura, e preparava, ela mesma, minha fantasia, finalizando-a com seu toque de artista.

As ruas eram todas decoradas com serpentinas, confetes e máscaras, o que naturalmente criava uma atmosfera de festa e alegria. Algumas lojas exibiam suas fantasias e adereços, vendendo serpentina, sacos de confete e o famoso lança-perfume — artefato cujos efeitos ‘alucinógenos’ ainda não conhecíamos. Afinal, como já mencionado, tudo era muito puro, sem malícia, sem medo de perder o “Trem das Onze”, a chegada do “General da Banda” e os suspiros da “Menina que era um docinho de coco”.

Na minha mocidade, o Carnaval era uma celebração de encontros e reencontros. Enquanto os amigos se reuniam para planejar suas fantasias, os namorados trocavam olhares cúmplices, ansiosos para dançarem juntos, nos bailes de salão. Estes, por sinal, eram verdadeiros espetáculos, com bandas ao vivo tocando músicas contagiantes e dançarinos habilidosos.

Havia baile e matinê em três Clubes de São João, mas destaco o Centro Recreativo Sanjoanense (CRS) como um dos que marcou, demasiadamente, nossa juventude. As quatro noites de folia eram glamourosas, tanto que atraiam jovens de cidades vizinhas. Toda essa agitação provocada pelo Carnaval tornava nosso Clube, um dos melhores da região. Terminada a Festa do Rei Momo, a quarta-feira de cinzas nos pegava, com uma deliciosa canja, servida pelo próprio CRS aos foliões que pulavam até o amanhecer.

Por essas e outras memórias é que o Carnaval, para mim, tem um significado especial. Desperta uma nostalgia feliz, se é que essa combinação é possível. Hoje, ao olhar para trás, percebo que as lembranças desses dias de folia ainda aquecem meu coração e, em meio à rotina, tão agitada quanto um samba-enredo, concluo: Que sorte a minha ter vivido naquela época, em que a alegria entre os jovens reinava soberana sem precisar de artifício algum, e o tempo parecia não ter fim…

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