Ano Novo e Animais

O Quati falou para o Macaco Prego:
– “Eeeeba, chegou o Ano Novo”!
– Vamos ter muitas sobras! Concluiu o macaco.
O ratinho na raiz da árvore alertou sua família:
-“Vamos ficar atentos, pois no verão as serpentes estão mais ativas”.
O sapo, relaxado no espelho d’água morninho, deu início ao seu galanteio vocal.
O cheiro na floresta está mais intenso com a umidade do verão. Os pássaros de sub-bosque permeiam os galhos dos arbustos em voos acrobáticos atrás de insetos e frutas. Os artrópodes estão na sua saga diária atrás de alimentos e parceiros com suas estratégias mirabolantes dando início aos que estão abaixo da serrapilheira fazendo seu trabalho de decomposição e ciclagem dos nutrientes.
Epa!!! Mas como sabem que é ano novo? Quem virou a folhinha do calendário? Uhhhnnn deve ter sido o macaco prego lá na barraquinha de pamonha enquanto degustava um bolo de milho. Ele notou o movimento dos humanos, viu que tinha gente chegando que não parava mais, foi só ele subir no dossel da árvore de barriga cheia que os quatis perceberam que ali tinha.
As flores e as sementes deixadas no solo por dispersão dos ventos da primavera já estavam em forma de mudinhas no chão da floresta. Todos os animais da floresta estavam transitando de dia e de noite, também pudera né? Esse foi um ano bom, muitas sementes, muitos frutos e, aqui pra nossa região, graças a Deus, poucos incêndios, então… a prole, providenciada na primavera, está agora acompanhando e aprendendo com os pais, escolhendo os alimentos e aprendendo a comer o certo. A galera toda da fauna se prepara para o outono e inverno que, aqui, diga-se de passagem, não é rigoroso.
Tudo estava no ciclo normal da natureza. Antigamente, chegava uma “certa noite” e a fauna escutavam uns estouros e umas luzes parecendo rabo de foguete no céu acima das cidades. O estrondo mais intenso era o tal do rojão de 12 tiros + 1 porém, ultimamente, a fauna tem perdido muitos parentes, principalmente aves urbanas, pois o tal 12+1 é fraquinho perto das baterias de fogos de artifícios que o homem inventou.
-Pô! “Podia ser igual antes”, lamentou a canarinha em luto.
-Antigamente, até dava um sustinho, mas… não matava com a quantidade de estrondos fortes e contínuos como agora.
O pardal ouvindo exclamou:
-“O homem sempre quer mais”!
Viramos o calendário! Ele é religioso, econômico e, sobretudo, especista. Molda-se a nós para organizarmos toda nossa estrutura sócio econômica, mas não tem nada a ver com a natureza dos animais, incluindo nós. A cronologia correta para nossa vivência no planeta tem a ver com as estações do ano e com a disponibilidade de recursos naturais. Considero importante a proibição dos fogos sim, pois hoje em dia, não é um mero morteiro, como disse a canarinha. São baterias estrondosas e ininterruptas, mas e o que tange os outros impactos que fazemos ao mundo dos bichos?
Enquanto o especismo reinar atitudes de proibição, disso ou daquilo, gera mais palanque do que entendimento. Não se trata de o homem achar maneiras de minimizar os danos aos animais e sim, de se colocar no lugar deles, ou melhor, se enxergar como animal e fazer parte da teia da vida e não como dono do mundo arbitrando ao que lhe convêm. Há muito sofrimento animal que dura muito mais do que um estouro de rojão e pode estar silencioso em nossa sociedade.

Plínio Aiub é médico-veterinário especializado em animais silvestres

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here