Entre figos e vésperas

Por Lucinda Noronha
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“Alguém sabe onde compro figos verdes aqui em Águas da Prata ou em São João. Aqueles pra fazer doce em calda…”. Joguei essa pergunta no status de algumas de minhas redes sociais. As respostas começaram a chegar dois minutos depois: “Lá no Big Bom você acha! Pré-cozidos.” “Eu comprei na feira de domingo, em São João, lá perto da Cidade das Artes.” “Já foi à Quitanda da Beth? Tinha até a semana passada!”

E por aí seguiu uma lista das mais solícitas indicações. Fiquei feliz e me animei a prosseguir com minha busca como se fosse muito experiente em fazer o tal quitute. Na verdade, até sou! Se pensar que experiência é vivência e não necessariamente manuseio direto ou confecção de algo por si próprio, sou expert em saber, pelo menos, o que representa um bom tacho de doce de figos fumegando e invadindo a casa toda com aquele aroma… ah, aquele aroma da casa de minha mãe! O indescritível cheiro de véspera de Natal que a gente sentia desde a dobra da esquina da rua Santa Cecília se ocupou desmedidamente de um lugar na alma- por isso dedilhei a mensagem nos status das mídias digitais. E não foi à toa, claro! Fosse em julho não teria talvez pensado em doce de figo. Mas é dezembro! É dezembro e, por alguns minutos atrás, eu havia acabado de programar com filhos, nora, irmãs, como e onde passaríamos o Natal. Agora sei por que o aroma do figo em calda surgiu resgatado pela memória afetiva de dias felizes que sempre antecediam um outro momento tão esperado como o da ceia natalina. Nessa fração de tempo passou pela minha cabeça que talvez poucas amizades se sentiriam tão confortáveis em me responder, já que nem todas nutrem o mesmo sentimento. Questionei se era conveniente tentar contagiar outras pessoas com as minhas clichês impressões sobre esta época do ano. Nem todos gostam, nem todos celebram… É, isso é fato. E imediatamente lembrei-me de uma frase que amo de Clarice Lispector- “Cada pessoa é um mundo!”. Imagino o meu semblante nessa tão curta passagem do tempo — o mesmo que meu marido descreve tão bem quando diz que eu “desliguei”, com o olhar parado e perdido. Pois é… eu costumo mesmo transitar entre dois mundos, mas em certos contextos, concluo que não consigo estar em universos diferentes ao mesmo tempo. Voltei para o meu, e também dos outros seres que contemplam os tais dias que rodeiam o Natal. Que seja! A questão é que comprei os figos. E na fila da quitanda havia mais pessoas com seus quilos da mesma fruta nas mãos. A duas senhoras que estavam atrás de mim conversavam: — Como hoje está tudo mais prático, não é mesmo? A gente agora compra os figos

pré-cozidos e limpos! — comentou uma delas.

— Então, menina! Antes era ferve daqui, ferve de lá, raspa a casca, volta pro tacho, faz a calda, espera engrossar, deixa o figo “dormir uma noite” e só no outro dia pra poder comer! “Metade de todo esse processo já estava parecendo longo demais pra mim.” Salvem essas boas almas que já limpam e pré-cozinham o figo!” — pensei. Decidi entrar na conversa:

— Quanto tempo, mais ou menos, vai levar pra esse tanto de figo que comprei ficar pronto? A que estava na minha frente aproveitou para prosear também e respondeu:

— A quantidade não interfere. O que você vai precisar é de uma panela grande.

— Mas ela está perguntando sobre o tempo, Márcia! Enfim, em torno de dois dias — um só pra dar uma outra “aferventada” e colocar para engrossar na calda depois. A outra, mais atrás, interrompeu:

— Então, querida… o figo, pra ficar mais saboroso, tem que permanecer no tacho pelo menos do dia pra noite. Faça uma cruz na parte traseira pra deixar a calda penetrar mais. Agradeci pelas informações. Paguei os figos e peguei o rumo de casa. No caminho, recebi mensagem do meu marido: “Tudo bem aí? Por que não aproveita que está na rua e não pega os figos em alguma quitanda? Lembra que comentou ontem?” Respondi: “Já peguei! Vou começar a fazer amanhã pra ficar pronto na sexta-feira!” “Nossa! Mas por que tanto tempo pra fazer esse doce?”— perguntou. “Robson, doce de figo é assim, não sabe? É ferve daqui, ferve de lá, raspa a casca, volta pro tacho, faz a calda, espera engrossar, deixa o figo “dormir uma noite” e só no outro dia é que pode comer!” – respondi sem pular uma etapa do processo antigo que a senhora da fila havia comentado. Fiz questão, só pra impressionar mesmo…

Depois dessa encenação toda, acho que haverá poucas chances dele não apreciar o meu doce por saber quão demorada e detalhada é a tal produção… Exato! Jogada de mestre, aliás, de mestra — experiente em fazer figo em calda (pela primeira vez, rsrs). Por fim, o que espero é que esse doce leve o tempo suficiente de preparo para encher a casa de aromas – aos filhos, à nora, ao marido, aos meus pais, a toda família, aos amigos e aos vizinhos. E que ao dobrar a esquina da minha casa, possa-se sentir que os dias próximos ao Natal chegaram, por mais simbólicos que sejam. E se para o mundo de alguns esse simbolismo não fizer sentido, ao menos que “os cheiros” de quem está feliz preparando um caldeirão de figos em calda seja, no mínimo, agradável.

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