Como diz a música do Rappa – “Paz sem voz, não é paz; é medo”.
Pergunto: Será que nossa paz é medo? Medo de mudar, medo de se opor, de dizer tantas coisas certas, mas vistas como erradas, sob pena de ser lacrado, cancelado ou tantas outras formas de “gelar” alguém que não pensa como o outro considerado supostamente notório?
Não queremos aceitar, mas nosso planeta está esquentando demais! Não queremos ouvir, nem enxergar, mas as poluições audiovisuais estão aí; não queremos admitir, mas nossos hábitos mudaram muito com a internet; não queremos assumir, mas nosso protagonismo no planeta não é algo de que possamos nos vangloriar.
Procuramos seguir em frente; não olhar para os lados, onde estão as diferenças de um mundo desigual. É difícil para nós estarmos no trânsito com nosso carro com sonzinho e o ar ligado e, de repente, olhar para o lado e ver uma família debaixo do pontilhão com uma criancinha peladinha ajudando a mãe a estender um trapo num varal improvisado. Silenciamos dentro de nós, fazemos parecer que isso não faz parte do nosso mundo; que fizemos nossas escolhas e elas nos levam ao progresso e que aquela cena não pertence à vida que almejamos. Então, fingimos que aquilo é um “apêndice” mal resolvido de uma sociedade que não é a nossa.
Nossa previsibilidade, nosso conforto, nosso mundo da internet, onde somos protagonistas de nós mesmo, onde procuramos nos fortalecer e nos sentirmos capazes, (como os coaching nos ensinam); acordar o herói que existem em nós; o guerreiro valente que pode vencer o mundo, um mundo onde “somos o cara”! O cara que vive numa bolha e que perdeu toda sua essência animal/natural e que corre atrás de objetivos que materializam sua boa vida. Um cara que sustenta a família e que educa seus filhos para vencer como ele venceu na vida; que protege os seus de qualquer coisa fortuita; onde tudo fica cercado de cuidados para que você se sinta o rei do seu mundo. Um mundo cientificista que anula qualquer iniciativa no campo metafisico; que tira qualquer reação fortuita e natural ao meio; que se programa para viver dentro das quatro linhas da ciência, onde só é verdade o que se pode provar em teses de doutorado e que nos codifica em algoritmos, coisa da moda! Um mundo provável e econômico.
Olhar um morador de rua não nos atinge mais; olhar a estratificação do gênero não nos assusta; ver o bem-sucedido ser palhaço de um aplicativo não nos comove mais; ver carreiras fugazes e vazias obtendo bens de consumos caros e esbanjando o vil metal! Isso é motivo de aprendizado para chegarmos lá. Que coisa mais triste!
Sei lá! Parece que o planeta vem dando sinais, mas preferimos ter mais paz do que razão. Na verdade, a razão ficou subjetiva hoje, pois o nosso cérebro terceirizou seu trabalho para os aplicativos de busca. Tudo agora são os apps.
Não penso mais; delego. E as informações são tantas que nos confunde e ficamos perdidos. A sorte é que semana que vem marcamos uma viagem a Capadócia para voar de balão e ver tudo lá de cima; reforçando nosso status de estar no comando de tudo; de nos enxergar como a única espécie do planeta que merece atenção; de reforçar nossos modos de vida em detrimento dos animais que vivem sem essa egoísta contaminação do mundo moderno e sofisticado feito para nós e para os nossos.
Mas, lá no fundo sabemos e temos medo. A humanidade não está no caminho certo. Tentamos nos posicionar, mas nos acomodamos, pois a distração é grande! Então aceitamos e também levamos nossas vantagens pessoais. Se quebramos o silêncio, vamos quebrar o egocentrismo. Não parece isso que a humanidade quer!

Plínio Aiub é médico veterinário especialista em animais silvestres




