Cidades e costumes

Lembro-me bem como era assistir à televisão em preto e branco, tendo que me levantar da poltrona para girar aquele botão que rodava, para trocar os canais! Parecia apenas um ato de mudar o que se estava assistindo para outro programa, mas na verdade, era muito mais do que isso.

As cidades e nossos costumes no cotidiano mudaram muito e ainda vêm mudando bastante, tanto no âmbito mecânico, como no emocional. Trabalhamos intensamente em prol da tecnologia para que gere algo para nós, seja o controle remoto da televisão, seja a automação agroindustrial e outras. Nessa corrida ao conforto, as cidades também têm se moldado: mais ruas, avenidas largas para novos carros, mais prédios, mais transportes subterrâneos, aéreos, marítimos… Tudo em prol da única espécie: o homem. Vejam a ocupação da costa litorânea brasileira!

O Brasil é uma mistura dessa evolução tecnológica e do atraso nesse quesito.

Muitas cidades em nosso país ainda não têm energia elétrica; outras são polos tecnológicos. O acesso ao litoral se intensifica e para regiões remotas se estagna. Porém, nessa conta da evolução, estamos perdendo lentamente muito da nossa natureza. Ao se levantar para trocar de canal, o corpo fazia muito mais do que apenas mudar o programa; havia uma essência fisiológica em todo o movimento e, hoje, procuramos tudo que é fácil para nós: comida, sexo, festas, conforto… fechamos os olhos para o real preço que isso custa a nós mesmos e ao planeta.

O Holoceno tem sido a era mais favorável ao planeta. Neste período não tivemos grandes transtornos planetários e a vida na terra tem seguido em sua exuberância estável. Fomos, devagar no começo, mas muito rápido agora, extraindo da natureza tudo que podemos para gerar esse conforto tecnológico.

Medimos parcialmente o impacto que isso pudesse gerar às demais espécies e a nós mesmos. Nossos ancestrais, para obter alimentos, precisavam de muitos esforços; o conforto era o êxito de uma árdua caçada e um pedaço de alimento compartilhado à volta de uma fogueira para se aquecerem. Sabiam intrinsicamente que possuíam um corpo celeste com fluidos, que precisam circular; músculos que precisam se contrair, coração e pulmão para oxigenar… Nós, ”engolimos” o mundo com nossa ganância e desejo por conforto, correndo na esteira numa sala fechada com fone de ouvido para derreter a gordura acumulada pelo conforto.

Enquanto isso, os animais que não têm cidades e nem automação, vivem com o que ainda resta da nossa sanha pelo dinheiro/conforto. Continuam a se exercitar, buscar alimento, buscar a perpetuação da espécie, beber água límpida e sobreviver extraindo o mínimo e de forma sustentável… E nós, estudando se eles são racionais ou não!

Para fechar o texto! Como é bom ainda enxergar um caboclo sertanejo que tem idade e força para trabalhar; uma avó quase centenária que costura e lava as roupas; um pescador que tem na pele a marca do sol e um senhor simples que carpe na enxada com seus 70 e poucos anos. Essa gente seguiu em frente sem se “contaminar” com os novos costumes, gente que preza o tempo, o respeito ao organismo, os demais animais, a natureza…  Que não se contaminaram com a vida que passa na TV e no smartphone; apenas seguiram em frente usando seu corpo em prol da vida e não vida em prol da velocidade da tecnologia.

Trabalhamos para ter cidades modernas e tecnológicas, mas nossos costumes, na essência, serão sempre muito parecidos com o dos animais.

Caro leitor: compare-se mais a eles em sua vida e terá propósitos mais nobres do que apenas conforto.

Plínio Aiub é médico veterinário especialista em animais silvestres

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