No contexto da educação (que é predominantemente escolar na modernidade), a avaliação faz parte do processo de ensino-aprendizagem como um de seus componentes essenciais. Daí, se segue que a finalidade da avaliação, em última instância, é a mesma finalidade da educação em geral. E esta, no precioso entendimento de István Mészáros, é a emancipação do homem. Essa emancipação, segundo o pensador húngaro radicado na Inglaterra, “é inseparável dos valores escolhidos pelos próprios indivíduos sociais, de acordo com suas reais necessidades, em vez de lhes serem impostos”.
Uma avaliação que opere no sentido de uma tal educação é, ela própria, emancipadora, promotora da humanidade, sendo inserida no universo educativo como componente do processo de ensino-aprendizagem. Não é um mero processo classificatório.
Quando a escola organiza um “calendário de avaliação”, com provas colocadas em momentos separados do processo pedagógico geral, o que ela está fazendo senão tornar a avaliação “estranha” à educação? Isso não significa que as provas devam ser eliminadas do processo de avaliação. Significa apenas que elas devem estar articuladas com outras estratégias avaliativas e – o que é mais importante – que o conjunto dessas estratégias esteja integrado no processo de ensino-aprendizagem, de tal modo que este processo não progrida sem a intervenção da avaliação.
E as notas? As notas, tanto das provas quanto das demais estratégias avaliativas, devem converter-se em “anotações” sobre o caminho percorrido pelo estudante, a fim de que se possa planejar ou replanejar o caminho a percorrer.
A avaliação num concurso público tem natureza diversa da avaliação escolar (ou, se se preferir, da avaliação “educativa”). Num concurso público a lógica que preside a seleção dos candidatos à vaga a preencher é a lógica concorrencial, típica do sistema do capital, e, nessa medida, ela assim continuará.
Dessa maneira, a educação há de ser vista numa perspectiva radicalmente diversa da predominante e deve ser colocada a serviço dessa mudança social global. Muda essencialmente o trabalho, muda a concepção de educação, de ensino-aprendizagem, e, no bojo desse processo, muda também a avaliação escolar. Docentes e discentes mudam no seu modo de relacionamento, na sua motivação, no seu interesse.
Com uma proposta emancipadora, os jovens podem ser uma força viva, alterando fundamente as condições de aprendizagem. Quando todo o processo é repensado, também a avaliação o é. Uma postura docente responsável, acolhedora, firme, competente e carinhosa poderá tirar o medo da avaliação, que deixará de ser confundida com prova e com sua companheira inseparável, a temível nota.

Sérgio Castanho, doutor em Educação, é escritor, professor colaborador da UNICAMP e titular da Academia Campinense de Letras.
Maria Eugênia Castanho, doutora em Educação, é professora
universitária, e titular do
Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.




