Caça e moral

Sabe aquela imagem de um catador de lixo com a sua carriola lotada de lixo reciclável e nela escrito: “um carroceiro faz mais do que um Ministro do meio ambiente”?

Pois é… Existem vários fóruns, reuniões e discussões, importantes para ditar acordos, assinar compromissos, tratados e que trarão diretrizes novas para o meio ambiente do homem.

Mas… A pegada está muito além de nós ou dos fóruns! Tratamos o ambiente como um meio e não o todo, ou seja, não nos colocamos dentro dele e, ainda assim, tentamos arbitrá-lo, numa clara demonstração do antropoceno. Pensar em ambiente é prudente, observar o que ingerimos, vestimos, verificar nossos hábitos e, principalmente, o que trazemos para nosso próprio bem. Rapidamente, veremos que a frase do carroceiro tem lá suas verdades!

No mês de junho, foi votado o PL 5544/2020 sobre a legalização da caça esportiva, um absurdo ao ambientalismo! Prática ilícita, existente desde 1967, representa 10% de todo o tráfico de animais silvestres do mundo, com cerca de 38 milhões de animais retirados dos biomas pela apanha, captura e venda. No congresso, também tramita a tentativa de aprovação de uma lista de pet silvestre, dando direito, por exemplo, de uma pessoa ter um macaco como pet, confundindo os ambientalistas que tentam entender se é bom legalizar tudo isso ou punir cada vez mais.

Difícil mensurar essas coisas! Logo que se fala lei da “caça”, se denota como ruim, porem é legal e cultural em certas comunidades da floresta como fim alimentício e também pode ser ferramenta da biologia da conservação no controle sanitário e de pragas exóticas. Os conflitos de fauna no meio rural e urbano, os atropelamentos e todo tipo de relação que se construiu com os animais confunde a leitura do que é em prol do ambiente. O Brasil é o país mais verde do mundo. O que mais protege suas reservas. É o que tem mais energia renovável e um dos mais biodiversos em fauna e flora. Temos 66% de áreas protegidas, ou seja, o país que mais preserva dos 10 maiores do mundo. Deixar esse patrimônio, sem estabelecer reais diretrizes baseadas em estudos, é a tarefa mais árdua para ambientalismo urbano, cheio de informações, mas com muito protetor solar e sem nenhum contato real com o desenho geográfico brasileiro, com sertanejo ou com o produtor?

Fica complicado quando deixamos pra debaixo do tapete a questão da sanha de pessoas que querem ter animais engaiolados, trancados, vendidos e, supostamente, bem cuidados e não nos preocuparmos com controle de pragas (que nós mesmos criamos), com as compensações ambientais que os licenciamentos podem gerar, óbvio, se bem fiscalizados. Não devemos apoiar a caça, em hipótese alguma, mas sim, tira-la do oculto, regra-la e vigia-la.

Para ajudar! Comecemos do simples, puxando uma carroça, catando nosso lixo, educando nossos filhos no ambiente onde não precisem dar “pipoca aos macacos”… Depois, conhecendo o país que temos de leste a oeste, de norte a sul, montado a cavalo, a pé ou de carro mesmo, dormindo no relento, fora da nossa zona de conforto.

Só informação e vivência urbana, sem pegar uma carga de carrapato micuim e conhecer o campo não atinge o ponto. Bom será se vivermos o que pregamos sem acreditar em heróis verdes. Aos poucos, com essas experiências, teremos moral para opinar e participar do ambiente nu, despido, sem lanchinho ou repelente.

Quantos dias você aguenta largado e pelado no mato?

Plínio Aiub é médico
veterinário especialista em animais silvestres.

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