
Tenho vários causos a contar, ocorridos no período em que cursei o Colégio Culto à Ciência. Conto agora uns poucos, dando assim sequência à excelente crônica “Histórias no aniversário do Culto”, de autoria do amigo e confrade Gustavo Mazzola.
No Culto à Ciência fiz os três anos do Curso Colegial, equivalente hoje ao Ensino Médio, na modalidade Científico, de 1955 a 1957. Havia também o Clássico, voltado sobretudo às Humanidades. Seria mais adequado às minhas inclinações para a literatura, a filosofia, a linguística… No entanto, fiz o Científico, pensando numa vaga orientação para seguir Medicina. Foi bom. Não fiz Medicina. Fiz Direito e Ciências Sociais na graduação da PUC-Campinas; Sociologia do Romance no Doutorado da USP; e Filosofia e História da Educação no Mestrado e Doutorado da Unicamp. Mas foi ótimo ter tido aulas fortes nas chamadas “ciências duras” (física, química, matemática), sem descurar das humanísticas (línguas, filosofia, história, geografia). Não se pode chegar à educação superior e nela voar solto sem uma sólida preparação nas duas asas da ciência.
Mas vamos aos causos. A disciplina era rígida no Culto à Ciência e tinha um forte acento moralista. Embora as classes fossem mistas, os recreios das meninas e dos meninos eram separados. O recreio masculino era um galpão cujo telhado sem forro assentava em traves de madeira com vigas largas. Numa das vigas, a central, estava escrito em latim “Mens sana in corpore sano”, que todos sabíamos significar “mente sã em corpo são” ou “mente sadia em corpo sadio”.
Um belo dia a tal viga apareceu ostentando, bem no meio da inscrição latina, um preservativo masculino, que então era conhecido como “camisinha de Vênus” ou “condom”. Foi um escândalo. Só se falava nisso no colégio. O diretor mandou instaurar uma sindicância para apurar a autoria desse “atentado ao pudor”. Todos sabíamos quem tinha pendurado a camisinha na viga, mas ninguém queria alcaguetar o colega. O cerco, porém, era implacável. E, ao fim de algum tempo, descobriu-se o autor do “atentado”. Não direi o sobrenome para não o expor. Mas o primeiro nome era Carlos, considerado o melhor ou um dos melhores alunos do colégio. A punição foi drástica e irrecorrível: expulsão! Pensando hoje com os valores da cultura presente, talvez devesse ele ganhar, não uma pena, mas uma condecoração, um diploma de honra ao mérito, pois o uso do preservativo é considerado prática sanitária. E o próprio governo faz campanhas para incentivar seu uso em épocas como o Carnaval. Em suma: o que Carlos fez foi ilustrar, com o preservativo pendurado na viga, o preceito sanitário que nela vinha inscrito.
Outro causo. Havia dois alunos que se destacavam pelo sucesso escolar: Nélson de Jesus Parada e Egberto Foot Guimarães. Por essa época promovia-se na cidade uma disputa entre estudantes, denominada “Maratona Intelectual de Campinas”. Considerava-se de alto valor pedagógico essa disputa, pois – dizia-se – incentivava o aprimoramento dos estudantes pela aplicação aos estudos. Não entrarei no mérito do valor educativo da maratona. O fato é que, além de muitos outros, vindos de diversas escolas de Campinas, Nélson e Egberto inscreveram-se pelo Culto à Ciência. Entre os alunos do “Ginásio” (era assim que nos referíamos ao colégio devido ao decreto de 1895 que, na prática, passava o Culto à Ciência para o âmbito estadual, criando o Ginásio do Estado em Campinas) havia uma discreta torcida pelo Parada, que era tido como gênio. Realizam-se as provas. Sai o resultado: em primeiro lugar, Egberto Foot Guimarães; em segundo, Nélson de Jesus Parada. Euforia de uns, desolação de outros. Na ocasião editávamos um jornalzinho do grêmio estudantil, “O Culto à Ciência”, cuja direção e editoria cabia a José Alexandre dos Santos Ribeiro, Joaquim Cândido de Oliveira Neto e a mim. Reunimo-nos e decidimos abordar a maratona com humor, mas sem preferência. O jornal saiu com a manchete de primeira página: “EGBERTO VENCEU A PARADA”. O diretor Euclides Pinto da Rocha chamou-nos os três à sua sala, passou-nos uma reprimenda severa, ou “um sabão” como se dizia ao tempo, e chegou até mesmo a ameaçar a suspensão do jornal e de seus editores. Ficou só no sabão.
Último causo. Vamos para o interior de uma sala de aula, uma “classe” como se dizia então, sem preocupação com os estudos históricos do escocês David Hamilton que encontrou em velhos alfarrábios outros significados para essa palavra. Era aula de Geografia. A professora Maria Helena Valverde, morena clara de olhos verdes, de beleza singular, dava Geografia Física, explicando os chamados acidentes geográficos, as baías, os golfos, as ilhas, as penínsulas, as montanhas, as serras, como se apresentavam, como se haviam originado. A atenção dos alunos se dividia entre as maravilhas da natureza, que a mestra detalhava com maestria, e a estonteante beleza da própria professora. Nesse dia a professora Maria Helena explicava a “lei da compensação” da natureza: se num lugar havia uma montanha, em seguida havia um vale, o ponto alto sendo compensado pelo ponto baixo. O colega Heraldo levanta a mão, levanta-se do assento e completa: “Interessante a compensação. Em seguida ao belo há o feio. Professora: seu irmãozinho deve ser horrível”.
Era assim no Ginásio.
Sérgio Castanho é pesquisador e professor de História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras (ACL)




