Velhos professores do antigo Ginásio do Estado: Maísa

Em 1966, na despedida de solteiro de João Scannapieco: Prof° Antonio Ganino, Maísa Barcellos, Luci Demetrio, Delma Mangili e Ivone Marum (Arquivo Pessoal/Orestes Blasi)

Finalmente, cumpro hoje, mais uma promessa feita aos meus queridos leitores, e inicio uma série de crônicas, em que falo dos velhos professores do mais que centenário Ginásio de São João. Dedico as minhas lembranças a todos nós, que tivemos o privilégio de tê-los como nossos mestres, mas a dedico também aos descendentes dos mestres e dos colegas.

A série vai também para os professores Adélia Jorge Adib e João Scannapieco, os únicos de muitos que, por vontade do Altíssimo, permanecem ainda na nossa querida São João.

Diante da grande receptividade de uma antiga crônica, que falava dos meus antigos professores do Ginásio Estadual Cel. Cristiano Osório de Oliveira, prometi que voltaria a elas, mas agora mais completa, acrescentando causos engraçados que ocorreram na sala de aula ou fora dela.

Antes, esclareço que tive muita sorte, porque estudei em todos os prédios que abrigaram o velho e querido Ginásio, palco de tantos fatos alegres e tristes, que a minha privilegiada geração foi protagonista.

Vou começar pelo velho prédio da rua Professor Hugo Sarmento, hoje inexistente, destruído que foi, por mãos criminosas de um ou mais alunos, inconformados com uma nota baixa, como ocorria a boca pequena, à época.

O incêndio não seria o primeiro, muitos outros ocorreram, e todos com o mesmo desfecho, autoria desconhecida, depois de rigoroso inquérito policial.

Assim, não obstante a gravidade e a materialidade dos fatos, os culpados, como sempre acontece, até hoje permanecem, se já não morreram, impunes.

Como é natural, os professores daquele prédio foram envelhecendo, e a direção se viu obrigada a contratar novos professores.

Eu acho que a cidade só ganhou com isso, porque nossa privilegiada geração passou a contar com os velhos e os novos professores, recém-formados, atualizados, e de diversas procedências, como de São Paulo e de toda região.

Os leitores querem exemplos?

Maísa Barcellos, de São Paulo, que além da beleza, tinha uma didática impressionante.
Alguém ainda se lembra da sua aula de direção convergente e divergente? Eu me lembro.
Ela explicava assim: imagine isso, o povo sai das suas casas e vai para a matriz, a igreja seria o ponto convergente; depois os fiéis saem da igreja e voltam para as suas casas, que são os pontos divergentes.

Com Maísa, deixo as minhas saudosas lembranças e lembro-me bem da sua chegada a São João, ainda solteira, jovem, bonita, de tradicional família paulistana — os Barcellos.
Em São João, namorou e casou-se com Aécio Amaral, também de excelente família, com quem constituiu a sua [família].

As professoras solteiras foram morar na pensão da D. Dulce, na esquina das ruas General Osório com a Benedito Araújo, no centrinho de São João e Maísa era uma delas. [Eu] Me lembro bem, porque assistia aula particular de francês, com a professora Josephina Grigolette, que também morava na pensão só para mulheres, e homem só da porta para fora. Eu era o único privilegiado e, sem querer, acompanhei todo o namoro deles. Posso dizer que era um casal muito bonito.

Lembro-me do Aécio buscando a Maísa, na porta da pensão, com a sua caminhonete e seu terno de linho azul ou branco.

Como professora, Maísa era elogiada pelos alunos, colegas e conhecidos, e pintora por seus traços seguros e os resultados maravilhosos, como se pode ver no átrio da Prefeitura Municipal.

Tenho a impressão que ela escolheu São João porque sabia que a cidade era um celeiro de excelentes pintores, que cito, só como exemplo, Atílio Baldoque, Aldo Blasi, Tabajara Arrigucci, Ronaldo Noronha. Tal era o respeito que Maísa tinha pelos pintores que me lembro de tê-la visto no Cemitério, por ocasião do enterro do meu tio Aldo Blasi.

Ela nos deixou muito cedo e estive na missa de sétimo dia, na Igreja Nossa Senhora de Fatima, em São Paulo.

Obs.: Professora Maria Luiza ‘Maísa’ Barcellos do Amaral lecionava geometria e desenho e organizou o primeiro Salão de Artes em São João da Boa Vista.

Orestes Blasi é promotor de justiça aposentado e cronista. ‘Velhos Professores do Antigo Ginásio do Estado’ é a primeira de uma série de crônicas nas quais ele pretende narrar suas lembranças dos professores

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