Os jornais fizeram sua parte: algumas semanas antes do Enem, começaram as tradicionais reportagens sobre dicas, como se inscrever, exercícios de respiração, possíveis temas de redação, leituras obrigatórias, entre outros; e após o primeiro dia de prova, os memes, já previsíveis – respostas engraçadas, atrasadinhos rolando por debaixo dos portões, coisas do tipo. Mas não teve jeito: o destaque mesmo foi a ausência de participantes.
O número de inscritos havia sido baixo (menor desde 2005), mas a quantidade de presentes foi muito aquém do esperado. Embora o percentual de abstenção tenha sido apenas ligeiramente maior, o número absoluto foi muito reduzido. “É um reflexo da pandemia”, você poderia pensar. “Muita gente ainda não quer se arriscar”.
Mas e a baixa adesão à prova on-line, de cerca de 50%? Bem, o Enem digital não deixa de ser presencial! Frequentar as salas de informática oferecidas pelas instituições de ensino incorre no contratempo original – estar em um mesmo ambiente com possíveis contaminados. Isso fora os bugs no sistema, causadores de atrasos e cancelamentos de provas.
Fica a pergunta: será que esse modelo de avaliação ainda funciona? Não questiono a valia de dados anuais sobre a educação brasileira, especialmente de um exame que não visa recompensar a decoreba, mas sim a interpretação de texto. O ponto é a necessidade de reunir centenas de estudantes por quatro horas em salas de aula – e eliminar de cara quem teve problemas no trajeto e não conseguiu chegar a tempo.
Em relação ao conteúdo, honestamente costumo dizer que é uma prova gostosa. Talvez um pouco longa, mas gostosa. Isso porque é possível conseguir boas notas – outro conceito que, aos poucos, cai em desuso – sem precisar lembrar de cada detalhe do ensino médio. Aliás, provavelmente a maior parte eu já esqueci. Ou você ainda lembra (e se sim, parabéns!) de sorvetinho, sorvetão, Torricelli e Bhaskara?
Mas o Enem tem outras vantagens. Além de ser uma forma interessante de avaliar a capacidade de aplicar conhecimentos, é fundamental para ingressar e conseguir descontos em cursos de ensino superior. No entanto, será que o público-alvo (estudantes de ensino médio) está consciente disso? Quantos milhares de pré-vestibulandos sequer têm ideia das vantagens de um bom desempenho no exame nacional?
Talvez os professores (especialmente das instituições particulares) pudessem investir alguns minutos para explicar sobre isso. No fim, pode ser tão ou mais importante que decorar algumas fórmulas ou locuções adverbiais. Enem seria tão difícil assim.

Matheus Lianda é jornalista e gostou do tema da redação deste ano.

