Humanidade e Animais

“O fato dos animais domésticos cativos estarem em situação “não natural” não é simplesmente uma razão válida para tratar as observações sobre eles de modo menos sério. Os seres humanos estão exatamente em situação similar, não natural. Não evoluímos igualmente no mundo em que vivemos agora, com recompensas de longo prazo e estranhas demandas (sentados em salas de aula ou carimbando o cartões de ponto). Da mesma forma, não deixamos de levar em consideração nossas emoções, como sendo inexistente ou não autenticas, só porque elas não acontecem em pequenos grupos de caçadores/ coletores em uma savana africana, onde se acredita que a vida humana tenha começado Também somos animais domesticados. Podemos estar a certa distância de nossas “origens”, mas mesmo assim exigir que nossas emoções sejam consideradas reais e típicas da nossa espécie.”

“Por que não pode o mesmo ser verdade para os animais?” Termina o parágrafo Jeffrey Masson e Susan McCarthy na linda obra: Quando os Elefantes Choram (Geração Editorial 2001).

Essa pergunta deve ser bem compreendida e, mesmo que se trate de “mensurar” emoções, a resposta tem que ser técnica e não apelativa.

O que fizemos com nossos animais de criação e de companhia? Oferecemos as cinco liberdades de bem estar animal?
1. Livres de sede, fome ou má nutrição
2. Livres de desconforto
3. Livres de dor e de doenças
4. Liberdades de se expressarem
5. Livres de medo e stress

Claro que sim! Seria a primeira resposta de quem tem um Pet ou de quem cria animais de produção mas… se olharmos com a lupa da razão vamos encontrar muitas distorções… sim, muitas distorções! Pelo simples fato de que o homem ainda não resolveu sua própria existência, mas tende a interferir na natureza de forma a “ajeitá-la”.

Estamos nós e nossos animais respeitando conforme a origem estas cinco liberdades?
Essa é outra pergunta intrigante e serve a nos pôr a pensar pela razão e ir checando essas liberdades. Vamos lá!?

1) Os animais que temos como pet estão livres de sede, fome, ou má nutrição porque estão sendo cuidados por pessoas (tutores). Milhões de outros cães e gatos no Brasil não tem acesso pleno ao alimento. Existe uma desigualdade social canina e felina tal qual a nossa, mas o mercado pet food, ironicamente, vai bem.
Do outro lado, os animais de produção passam por outros tipos de situação. O Brasil, um dos maiores produtores de grãos do mundo, tem sofrido para alimentar esses animais com os altos preços dos insumos. O erro nasce em querer alimentar um herbívoro, ou onívoro só com grãos. O produtor, sempre pensando em terminar mais rápido seu produto final (gado, porco, galinha, peixe) para o abate e ganhar mais, acaba refém do mercado quando poderia ter menos pressa e respeitar essa liberdade do animal no tipo de alimentação adequada que o serve.

2) Quando a liberdade é conforto, aí então, os extremos se destacam. O cão “abastado” tem tudo que pode ter um príncipe. O cão de rua sente o desconforto que um desabrigado sente. O touro a pasto desfruta da sua virilidade em companhia de 20 ou 30 vacas. O touro da central (local onde se extrai sêmen) espalha sua progênie montando em cavaletes ou recebendo choques na próstata em nome do melhoramento genético. Mas a humanidade também não tem só conforto, estamos presos no sistema, somos sugados pelo dia-a-dia, corremos atrás do futuro, esquecemos o presente para, algumas vezes, lamentarmos o passado e, dentro desse círculo vicioso, por vezes, nos sentimos desconfortável com algo, como se fosse até uma premunição de que podíamos estar vivendo mais e correndo menos.

Mas, mesmo aquele que tem tudo confortável pode não ter nada. Vemos isso de perto nas clínicas veterinárias com os excessos e suas consequências e nas fazendas com doenças que desmontam rebanhos bem cuidados. Também vimos isso de perto em nossa própria pele na pandemia humana onde, dinheiro ou posição social, não foi fator tão relevante.

3) Qual dor lhe aflige? Qual dor aflige mais a humanidade contemporânea se não as mentais e físicas por stress? E no mundo dos animais? As dores são consequências, muitas vezes, dos cruzamentos inadequados que abastece o mercado baseado na beleza, no índice de “peposura” ou na produção. Qual é a dor do confinamento, da mutilação, do afastamento das crias, do não poder ser o que é ecologicamente para a espécie? E as emoções de cada espécie, estão sendo observadas como propõe o autor?

4) Mas quando o assunto é liberdade de expressão, literalmente, o “bicho pega”. Quem de nós está com total liberdade de se expressar como poderíamos ou gostaríamos? Expressar a humanidade em sua mais alta definição é a arte, a cultura, o amor e até a guerra, mas não esse modelo engessado de vida profissional que a maioria de nós vive. Já os animais, a conta é pior, pois diferente do que fazemos na entorpecedora rotina, nós os privamos, nós os atribuímos em uma rotina imposta. As clínicas veterinárias recebem mais problemas provenientes de mau manejo por privacidade do que doenças propriamente ditas. Privações de se juntar a outro da mesma espécie, de se soltar no mundo, de conhecer o cão vizinho que late ao lado. Queremos tirar o touro de rodeio profissional, mesmo sabendo que são tratados e condicionados para aquilo e que obtém toda assistência, na prerrogativa de que sofrem. E os atletas humanos profissionais, também não sofrem com os treinos e a preparação para as competições? Vimos, uma atleta de ponta da ginástica olímpica americana, desistir no meio da competição por pressão psicológica. Quem sofre mais? O touro do rodeio, o cachorro humanizado ou a atleta de performance que quer se superar? Não que saibamos a resposta mas não é difícil enxergar que todos sofrem quando não podem se expressar e, não sejamos hipócritas ao ponto de varrer pra baixo do tapete o que nos pertence como discrepâncias.

5) Se o medo e stress fossem colocados em pauta em tudo que vivemos e tudo que fazemos para os animais então… estaríamos reprovados de vez! A cultura do medo é “hoje” o maior mecanismo de manipulação da humanidade, um tremendo mercado de inseguranças para oferecer suposta “felicidade”.

Nesses tempos de pandemia, a absorção do pânico que os pets tiveram foi anormal. Imaginem o quanto eles sofreram com nossas neuroses e vem sofrendo ainda com a cultura do medo!? Imaginem o nível de stress e medo dos animais de produção confinados em local restrito? Imaginem o que somos nós diante de tudo isso, se não vítimas também!?

A humanidade tem que frear seu metabolismo, abaixar a bola e observar mais os animais em liberdade. Eles têm a resposta do que é viver em equilíbrio com todas as liberdades implícitas.

Plínio Bruno Aiub é médico veterinário especializado em animais selvagens e professor universitário

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